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Filmes de Ficção Científica (II): O Dia em Que a Terra Parou

Guido Bilharinho
Publicado em 06/06/2026 às 12:24
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Após o fim da Segunda Guerra Mundial, provavelmente, se não certamente, em decorrência da invenção e utilização (criminosas) da bomba atômica, deu-se surto de filmes de ficção científica nos Estados Unidos, que atingiu o auge nos anos 50.

Anteriormente, contudo, houve o célebre programa radiofônico de Orson Welles, noticiando a invasão da terra por alienígenas, que provocou notável reboliço. Essa ideia, todavia, não era original. Muito antes, no século XIX, nos mesmos Estados Unidos, Edgard Allan Poe publicou no jornal New York Sun, de 13 de abril de 1844, sensacional notícia da chegada ao país de uma máquina voadora e de um balão dirigível, notícia que causou sensação na cidade. Poe, aliás, é nada mais nada menos do que o criador da própria ficção científica com suas “Viagens Fantásticas”, escritas antes das obras de Júlio Verne e, ainda, da ficção policial com os contos “Os Crimes da Rua Morgue”, “O Escaravelho de Ouro” e outros. Além de poeta (“O Corvo”) e ensaísta (“A Filosofia da Composição”, etc.)

Quase todas (ou todas) as realizações cinematográficas de ficção científica no período caracterizam-se pelos baixos orçamentos quando não e também pela precariedade técnica e direcional.

Do ponto de vista temático, a maioria desses filmes apresenta apenas variações em torno de mesmo eixo. Aí, entra a maior ou menor utilização imaginativa, mas, sempre no mesmo diapasão: a visita ou em certos casos a invasão da terra por alienígenas mais ou menos normais ou previsíveis munidos de armamentos sofisticados ou por alienígenas monstruosos cujo poder letal eram seus próprios corpos.

Há, contudo, uma linhagem de filmes calcada no desencadeamento catastrófico ou trágico com base em experiências ou iniciativas dos próprios terráqueos, como A Mosca da Cabeça Branca (The Fly, 1958), de Kurt Neumann, também refilmado.

O filme O Dia Em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, EUA, 1951), de Robert Wise (1914-2005), perfilha a linha da visita à terra de um alienígena em disco voador, aparelho que dominava o imaginário popular à época, a ponto de ser até mesmo objeto de montagens jornalísticas sensacionalistas, como se afirma ter ocorrido no Brasil com reportagem publicada na revista O Cruzeiro, então a mais popular e influente. Simples artefato redondo ou ovalado atirado ao ar e habilmente fotografado já servia para deflagrar e manter o assunto em pauta, incendiando imaginações.

À semelhança da maioria esmagadora das realizações congêneres, desse e de outros períodos, o filme de Wise, diretor, entre outros, de Punhos de Campeão (The Set-Up, EUA, 1949) e Amor, Sublime Amor (West Side Story, EUA, 1961, codirigido por Jerome Robbins), é obra descartável, sobrevivendo como mero passatempo e exemplo da citada característica ficcional e modismo da época.

Não passa de filme de segunda categoria, quando não de terceira, totalmente convencional e linear, utilizando e explorando mediocremente os ingredientes usuais do gênero, incluída a mensagem crítica e de paz trazida pelo alienígena, de feições idênticas às nossas.

O que distingue a personagem, além da boa intenção, honestidade e bondade, atributos cada vez mais escassos na terra, é o poderio inimaginável de suas armas, corporificado em avançado robô e no instrumental que porta, capaz de paralisar todo movimento proporcionado pela energia elétrica, como fez e que serviu pelo menos para dar título ao filme.

No todo e em suas bases, é filme de ingenuidade infantiloide, atribuindo os males da terra justamente aos efeitos, e não às causas.

Contudo, a individualização da ação produz um de seus dois grandes momentos, responsáveis, malgrado tudo, pela consideração que deve merecer.

A personagem representada pelo namorado da moradora da pensão é articulada sobre sólidos fundamentos da ciência do comportamento. Por isso, é a única realmente substanciosa e autêntica na amostragem de conduta alicerçada numa das facetas mais importantes da natureza humana, que nada tem a ver com a ficção científica e, talvez, por isso, tenha se salvado da mediocridade geral do filme.

Outro momento memorável, este sim, típico do gênero, é representado pelas cenas dos milhares de veículos paralisados em ruas, praças e avenidas pela ação do alienígena, não só pelo inusitado do fato quanto pela beleza imagética.

Aliás, apagão semelhante a esse ocorreria na realidade, nas décadas de 70 ou 80, quando Nova Iorque ficou mergulhada na escuridão durante horas, fenômeno atribuído à época à ação da União Soviética, o que, depois do que sucedeu a essa confederação de países, ficou mais difícil, senão impossível, acreditar.

No entanto, não é a ficção científica que antecede à realidade, visto que o gênero (na literatura e no cinema) baseia-se em descobertas e possibilidades científicas tanto quanto na imaginação dos autores.

Como geralmente acontece nos Estados Unidos, o tema desse filme teve refilmagem dirigida por Scott Derrickson em 2008, que também não se destaca cinematograficamente. É de se ressaltar, contudo, no filme de Wise, cena da mais alta relevância, consubstanciada no diálogo travado entre a cientista protagonista e o extraterrestre, que explica, justifica e resume sua vinda e missão na terra.

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