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Filmes de Ficção Científica (VI): Alphaville

Guido Bilharinho
Publicado em 04/07/2026 às 11:07
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A ficção científica comporta arquétipos inevitáveis. Um deles, talvez o mais importante por seu significado e implicações, é o domínio da sociedade e da espécie humana, em geral, por pequeno grupo.

A referência mais célebre do assunto é o livro “1984”, de George Orwell, de 1948. No cinema, além de outros, destacam-se os filmes Fahrenheit 451 (idem, Grã-Bretanha, 1966, baseado em livro de Ray Bradbury, de 1953), de François Truffaut, e O Dorminhoco (Sleeper, EUA, 1973), de Woody Allen, um sério e denunciador, outro jocoso e gozador.

Em Alphaville (idem, França, 1965), Jean-Luc Godard (1930-2022) retoma o assunto numa perspectiva sombria, aduzindo novos ingredientes à carneirização e automatização do ser humano com a proibição pelo poder central Alfa 60 de todo sentimento e emoção, de qualquer desvio do comportamento lógico.

Nessa sociedade artificial e artificiosa é proibido chorar ou manifestar emoção e sentimento. Almeja-se e programa-se sociedade técnica como a dos cupins e formigas, na qual se extrai do indivíduo a substância íntima, humana, para transformá-lo em instrumento de desígnio superior de dominação.

         Além da vigilância exercida sobre os habitantes, imprescindível para a manutenção do poder e recorrente em todas as obras que abordam o tema, em Alphaville ainda é utilizado o expediente de eliminação das palavras que externam sentimento e individualidade, nela, como informa uma personagem, nem mais havendo artistas.

Em Fahrenheit 451, de Truffaut, os livros são banidos e a função dos bombeiros é encontrá-los e queimá-los, refugiando-se os intelectuais em bosques para, cada um, memorizar uma das obras-primas da humanidade face à iminência de desaparecimento de todas as suas reproduções materiais.

O filme de Godard, como as demais obras citadas e outras do mesmo gênero, parecem, aos menos avisados, exagerar a perspectiva do futuro.

No entanto, ela já é presente. Não ainda, evidentemente, com a radicalização preconizada, que, no entanto, é questão de tempo, de aperfeiçoamento técnico e exacerbação das contradições no interior do regime capitalista.

Pelo momento, e já há tempos, tem-se procedido ao controle da sociedade por meio da manipulação da informação, que constitui a peça chave da ignorância e da dependência. “Viver efetivamente é viver com a informação adequada”, afirma Norbert Wiener, o criador da cibernética, citado por José Lino Grunewald.

Se se tolhe o acesso ao conhecimento da realidade das coisas, transforma-se automaticamente o indivíduo em joguete dos interesses dominantes.

A própria grande mídia carece de autonomia, eis que inteiramente dependente de financiamento publicitário das empresas e corporações industriais, comerciais e agropecuárias e das copiosas e cada vez mais abundantes, não obstante inconstitucionais e ilegais, matérias publicitárias oficiais de autoelogios administrativos destinadas a domesticar e cooptar a sociedade, ao mesmo tempo promovendo eleitoralmente seus dirigentes.

O domínio, pois, desses grupos sobre a sociedade já é exercido na plenitude que os atuais meios de comunicação permitem e a consciência libertária ainda consegue limitar.

Não por acaso, no filme de Godard o termo consciência é desconhecido pelos habitantes de Alphaville, provocando espécie sua utilização pelo protagonista.

Tanto nessas sociedades criadas pela ficção como na real, os artistas, os autênticos, já estão marginalizados e o saber, a cultura e a leitura, desvalorizados. Em nenhum programa das televisões brasileiras comerciais de horário nobre e quase certamente dos demais países, promovem-se esses valores dando-lhes espaço e cobertura. Ao contrário, só a omissão maciça deles já os joga nos guetos ou nas ilhas de saber, isoladas e sem influência social, tornando-se mais grave ainda essa marginalização quando se entronizam em seu lugar a prática, o elogio e a valorização da imbecilidade, que são a matéria, o conteúdo e o sentido dessa programação.

Em consequência, autores desses livros e filmes não exageram, apenas anteveem como antenas da raça, conforme a acepção de Ezra Pound.

Do mesmo modo, o mundo sombrio que Godard e os demais autores expõem é realidade em curso, faltando para sua existência tal qual prevista apenas maior aperfeiçoamento técnico dos instrumentos de espionagem, controle e eliminação dos restos de democracia, para o que os encomendados, instrumentalizados e pretextuais bins Ladens vêm eficazmente colaborando.

Em Alphaville, como em 1984 e Farenheit 451, tem-se o nazismo da era tecnológica no poder.

O filme de Godard, tanto por sua concepção quanto realização, insere-se entre as mais significativas contribuições artísticas nessa área sensível e problemática, enquanto ainda for possível tematizá-la e expô-la.

Nele, tudo concorre para exprimir esse mundo tenebroso, desde os espaços e décors, destituídos de vida e humanidade, às personagens semiautomatizadas, carentes de quaisquer valores que não sejam os impostos pelos dirigentes, sendo o principal deles verdadeira finalidade de suas semividas, o de seguir fielmente suas instruções e vontades.

Se essa realidade fílmica se evidencia à prima facie por facilmente observável, a atuação e o objetivo do protagonista cercam-se de elaborada complexidade, exigindo especial atenção e acompanhamento do espectador.

Conquanto isso, há na trama uma contradição, visto que em se tratando de regime ditatorial, centralizador, que condena e executa as pessoas por simples desvios comportamentais – como chorar pela morte da esposa – causa espécie o protagonista entrar na área, ter livre circulação e, ainda, fotografar à vontade.

A heroína consegue se libertar do sufoco ideológico e mental ao sentir amor, o que tinha sido abolido.

Não é, pois, como qualquer dos demais filmes de Godard, narrativa de fatos e acontecimentos, porém, exposição, esteticamente bela, de sentido e significado, como são as grandes obras artísticas.

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