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Filmes de Humberto Mauro (Final): O Descobrimento do Brasil

Guido Bilharinho
Publicado em 12/09/2026 às 16:15
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Quando, ao que se sabe, ainda não se discutiam tão intensamente quanto tempo depois as origens, natureza e motivações da chegada dos portugueses ao Brasil, Humberto Mauro realiza o documentário O Descobrimento do Brasil (1937), de uma hora de duração. Menos ainda se punha em questão a primazia cabralina de ter aqui aportado.

O fato é que se não pode abordar o tema, mesmo em simples comentário cinematográfico, sem referenciar esses aspectos.

Depois da descoberta do manuscrito Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco, analisado no livro A Construção do Brasil, do historiador português Jorge Couto, é posta em causa a precedência de Pedro Álvares Cabral, visto que Pacheco aqui estivera em 1498 a mando do rei d. Manuel.

Digno de nota e, por isso, é de se referir, que no Brasil existia, ao tempo, três e meio milhões de indígenas enquanto Portugal comportava apenas um milhão de habitantes, conforme Edelweiss Teixeira (in O Triângulo Mineiro nos Oitocentos. Uberaba, Intergraff Editora, 2001), pretendendo outros que atingissem os aborígenes cinco milhões, mesmo que se questione tais números com a ardilosa indagação: “quem contou?”. Nesse contexto, quer-se que a chegada dos portugueses à região não passe de invasão, conquista, acaso ou tomada de posse, isto é, qualquer outra coisa, menos descoberta.

Do ponto de vista histórico, o filme reflete o conhecimento oficializado e preponderante à época (e até hoje para muita gente), nada questionando a respeito do assunto.

Perfilha in totum e explicitamente a versão da prioridade cabralina, não cogitando de outra, visto refugir o assunto às limitações da reconstituição dos fatos conforme relatados na carta de Pero Vaz de Caminha, que, segundo o historiador Eduardo Bueno, “é uma profissão de fé; é um relatório minucioso e uma reportagem repleta de frescor. É um tratado antropológico e uma utopia plausível [...] obra-prima ressonante e imagética [...] tecida com a matéria de que são feitos os sonhos”.

Tudo, pois, no filme, desde as grandes coordenadas da viagem aos mais ínfimos pormenores, que no caso não são, já que todo o acontecido, até o espanto de dois indígenas diante de uma galinha, é histórico e importante.

Assim, independentemente das discussões sobre a anterioridade e natureza da viagem de Cabral, o que se tem, historicamente, é grande acontecimento e, cinematograficamente, excelente filme.

Em tudo por tudo, a película de Mauro constitui obra-prima, tanto como documentário quanto como cinema.

Se no primeiro caso é fiel ao relato de Caminha, não excedendo seus limites, no segundo o reflete imageticamente tal qual exposto, desde as naus e as indumentárias até, principalmente, a formalizada postura de Cabral e demais dirigentes da frota e a informalidade fagueira e alegre dos marinheiros, a exemplo da performance de Diogo Dias a dançar com os índios e dar saltos mortais.

Porém, mais substancial que a direta filmagem dos acontecimentos, a reconstituição de Mauro – assessorado na parte histórica e em seu detalhamento por especialistas – na perfeição e pertinência com que é procedida ultrapassa até mesmo o nível da recriação para se perfazer em criação cinematográfica liberta da contextualização fática para atingir autonomia artística como obra pessoal e autoral, marcada pela sensibilidade, perspicácia e rigor, estreme de qualquer laivo de espetaculosidade, tal qual ensaio científico.

Nem por isso – e até por isso mesmo – é tediosa ou fria, constituindo, ao contrário, sucessão de fatos significativos e interessantes, mercê da depuração imagética e coordenada utilização da câmera em tomadas, ângulos e enquadramentos adequados, que valorizam o conteúdo fílmico tanto quanto ampliam a perspectiva óptica e realçam a beleza imagética, tornando cada cena quadro histórico dinâmico, vivo e presente.

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