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Filmes de Humberto Mauro (I): Tesouro Perdido

Guido Bilharinho
Publicado em 25/07/2026 às 11:08
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Um desses fenômenos, aparentemente inexplicáveis, constituem os primeiros filmes de Humberto Mauro (Volta Grande/MG, 1897-1983), um dos maiores cineastas brasileiros. Só de tê-los feito no Brasil, na década de 1920, distante dos centros mais desenvolvidos do mundo e até do país já é façanha digna de atenção.

Contudo, no caso, a performance de Mauro não se restringe a essas coordenadas, de resto relativas e meramente histórico-espaciais, mesmo que o só fazer, nas circunstâncias apontadas, seja admirável.

Mauro, entretanto, não se limita a isso, demonstrando já em seu segundo filme, Tesouro Perdido (Cataguases/MG, 1927), excepcionais atributos de realizador cinematográfico, consciente de suas possibilidades e das virtualidades da câmera, que utiliza com desenvoltura e segurança.

Tais aspectos sobremaneira se ressaltam nesse filme dada a fragilidade e o esquematismo da trama, simples pretexto para a prática a que estava vocacionado.

Se a história é anódina, se o relacionamento das personagens não ultrapassa o nível naturalístico, mais ainda se destaca o tratamento cinestético imprimido à realização.

A qualidade imagética do filme apreende e valoriza o núcleo e os contornos da paisagem ou do ambiente enquadrado pelo olho de uma câmera orientada firme e inteligentemente, englobando com igual intensidade tanto o objetivo da focalização quanto os detalhes que a compõem. Não perfaz propriamente a decomposição de um fato em seus elementos fotogênicos, de que fala Jean Epstein (“Realização do Detalhe”, in A Experiência do Cinema, p. 281, coletânea organizada por Ismail Xavier. 2ª ed., Rio de Janeiro, Edições Graal, 1991), mas, a apreensão e exposição compósita de objetos, fatos e paisagens, realçando-os e valorizando-os para deles extrair e, simultaneamente, infundir beleza e significado.

Se essa faculdade esmaece frente ao desenvolvimento da ação, quando o foco da atenção é a movimentação desenfreada das personagens, não perde, no entanto, a imagem sua força e vigor, nesse caso desviando o interesse do ambiente e das personagens para o que elas fazem e como o fazem.

A influência dos filmes estadunidenses da época, notadamente do faroeste, é, nessas ocasiões, perceptível. Mas, deles, Mauro apenas extrai os predicados e as lições de cinematografia, que são universais, não se subordinando a seu modus faciendi como costuma acontecer com as mentes colonizadas, meramente reflexas e imitativas.

Se as cenas iniciais de apresentação das personagens, de seu meio e inter-relacionamento familiar e de amizade, são poetizadas com a valorização estética do conteúdo imagético, as posteriores, de prevalência da ação sobre a composição, adequam-se, por sua vez, aos trâmites da estória.

Em decorrência dessa particularidade, o filme apresenta unidade e bom nível cinematográfico, necessitando apenas que a qualidade técnica da recuperação da película possa ser futuramente melhorada para que se consiga usufrui-lo em melhores condições de projeção.

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