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Filmes de Humberto Mauro (III): Sangue Mineiro

Guido Bilharinho
Publicado em 22/08/2026 às 12:01
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         Como se sabe, Humberto Mauro iniciou sua carreira de cineasta em Cataguases/MG, indo posteriormente para o Rio de Janeiro, onde a prosseguiu. Mais poderia ter feito, pelo menos em quantidade de longas-metragens, se as condições cinematográficas brasileiras permitissem.

         O filme Sangue Mineiro (1929), do cinema mudo, continua a fase transicional entre essas duas etapas, já que, não obstante ainda pertinente ao ciclo de Cataguases, com cenas de Belo Horizonte e trama desenvolvida no interior, conta com as participações, entre outras, de Edgar Brasil (fotografia), Carmen Santos (produtora associada e atriz principal) e Ademar Gonzaga (ator), todos residentes no Rio de Janeiro.

A atuação desses artistas e os demais elementos trazidos com eles produzem geral e nítido aprimoramento desse filme em comparação com os anteriores, realizados em condições bastante precárias.

A qualidade da câmera, a técnica e sensibilidade de Edgar Brasil e outros fatores permitem a Humberto Mauro exercer com mais desenvoltura suas possibilidades cinestéticas.

Além da beleza da fotografia, ampliação do campo da imagem, flexibilidade multidirecional da câmera, a direção e interpretação dos atores também se mostram mais seguras e desenvoltas.

O desempenho de Carmen Santos, heroína e ícone do cinema brasileiro, é, nesse sentido, exemplar ao transmitir as fases emocionais pelas quais passa a personagem que encarna, por sinal protagonista e pivô da trama, também ideada e roteirizada por Mauro, um dos cineastas que atestam e comprovam a pertinência da teoria autoral em cinema. Isso, sem prejuízo, em cada setor técnico da filmagem e, em alguns casos, até fora dele, dos respectivos profissionais, de cuja contribuição não se pode fazer tábula rasa, mesmo porque, sem eles e seu trabalho, nem seria possível a realização fílmica.

         O fato é que Sangue Mineiro é filme permanentemente moderno, inserindo-se, como toda a obra de Mauro, no centro axial da arte e da cultura brasileira, formal e tematicamente.

         Se no primeiro caso a linguagem cinematográfica excede os atributos encontráveis no conteúdo que viabiliza, nem por isso o significado deste é destituído de relevância.

         Se a imagem é bela, em alguns casos belíssima, se os enquadramentos são esteticamente eficazes e se a câmera agilmente acompanha a dinâmica movimentação das personagens, a problemática existencial, conquanto ainda linearmente, é exposta com objetividade e senso de realidade.

         As agruras, desilusões e desencontros amorosos dos seres humanos constituem a temática mais abrangente e recorrente da ficção Ocidental e muito também da poética.

         Nem por isso, em Sangue Mineiro, sua problematização e condução deixam-se influenciar ou monitorar pelos arquétipos e paradigmas do gênero. No filme, elas emergem do cerne mesmo de personagens perfeitamente contextualizadas no tempo e no espaço, configurando-se a partir de conhecimento e domínio do conflito amoroso por parte do cineasta, que, inclusive, o soluciona pela opção menos provável das três, mas, em perfeita consonância com a natural tendência da lógica que ata os liames sentimentais.

         Não é gratuita, pois, a circunstância de Mauro ser-lhe partícipe e contemporâneo. Num caso e noutro, tanto por inserir-se nas mesmas coordenadas temporais e espaciais dos protagonistas, todos compartilhando as mesmas idades, época e espaço e submetendo-se, em consequência, às respectivas e particulares condicionantes, de cuja influência e amoldamento ninguém é capaz de se isentar. Ressalte-se, ainda, o humor do cineasta destilado na figura rebarbativa e empolada do amigo do pai de criação da heroína.

         No filme, não é só a natureza que é bela e belamente apreendida e exposta. As personagens coparticipam dessa característica, sendo concomitantemente valorizadas e valorizando a focalização espacial do teatro da ação.

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