No Rio de Janeiro, para onde se transferiu após realizar em Minas Gerais seus quatro primeiros longas-metragens, nos quais há perceptível aperfeiçoamento formal, domínio das possibilidades da câmera, amplitude e aprofundamento temático, Humberto Mauro inicia suas atividades cinematográficas com Lábios Sem Beijos (1930), o único de seus longas de ficção no qual argumento e roteiro não são de sua autoria.
Essa circunstância, contudo, não produz nenhuma discrepância ou choque em sua percepção do fenômeno cinematográfico, inserindo-se normalmente na linha evolutiva de sua obra.
Do ponto de vista temático, o filme assenta-se também em conflito amoroso como seu anterior Sangue Mineiro.
As personagens, como neste, são jovens justamente na idade geralmente exacerbadora desse sentimento e definidora do seu objeto ou destinatário.
Há, ainda, entre esses dois filmes, certa similitude temática, além de estrutural, na articulação da pendência amorosa. Na película mineira, com base no fato concreto do galã ter sido anteriormente namorado da irmã de criação da protagonista. Na carioca, coincidência de nomes leva à confusão entre os namorados das heroínas, propositadamente explorada por uma das personagens. Ocorre, ainda, em ambos os filmes, a circunstância das protagonistas serem jovens desinibidas e modernas, provocando o inevitável antagonismo geracional e, principalmente, a oposição (e opressão) patriarcal.
Porém, nesses filmes tudo se esclarece e se resolve, acabando bem, conforme o usual formulário cinematográfico.
Como se nota, nada de profundo ou consistente sob o prisma do significado, conquanto, para os jovens de todos os quadrantes e épocas, essas questões assumam considerável importância.
O problema, no entanto, nesses filmes é que o tratamento se dá apenas ao nível da exteriorização das atitudes das personagens, cingindo-se à narrativa dos fatos consoante se manifestam, devendo-se observar, no entanto, que a problematização temática engendrada coaduna-se com a realidade.
Além disso, constata-se neles a ocorrência do humor, da mesma conotação e natureza de seu congênere machadiano, na personagem de linguajar empolado e rebuscado do primeiro e na figura caricata do datilógrafo do segundo, onde a ironia mescla físico e conduta.
Já no que se refere à sua formalização imagética, Lábios Sem Beijos prossegue o paulatino aprimoramento da obra de Mauro, ressaltando-se que neste filme tanto a fotografia quanto a montagem também são de sua lavra.
Aqui já se não tem apenas maior amplitude na visualização dos contextos ambientais ou paisagísticos e maior desenvoltura e domínio das possibilidades cinematográficas. Aduz-se a isso mais do que isso, tanto na maior sofisticação imagética quanto em sua plena e consciente poetização, realçando sutil e detalhadamente aspectos ambientais dos espaços onde transcorre a ação, bem como na melhor valorização fisionômica das personagens em variados e pertinentes closes e primeiríssimos planos, articulados e alternados ou revezados com planos mais amplos, como poucas vezes se praticou no cinema brasileiro.
Como sempre também, destaca-se sobremaneira a paisagem, natural nos filmes mineiros e ajardinada neste, onde, por sinal, Mauro é comedido e discreto na visualização das praias, o que pode decorrer de uma, de duas ou de todas as seguintes razões: falta de intimidade com a orla marítima, limitações e exigências do roteiro ou desnecessidade estrutural, já que a Mauro repugnam o excesso, o desperdício e a exploração superficial e turística da ambientação dramática, circunscrevendo sua focalização à funcionalidade e necessidade, afastada toda gratuidade.