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Filmes de Israel (Final): Kadosh

Guido Bilharinho
Publicado em 26/09/2026 às 15:35
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Pouco ou nada se conhece na América Latina, Brasil incluído, do cinema israelense, bem como do cinema de inúmeros outros países, até mesmo europeus de menor porte.

O muro que se antepõe à sua divulgação é o mesmo – e justamente por e para isso – que monopoliza a distribuição de filmes nos países latino-americanos, para onde são canalizados quase unicamente, nos últimos tempos, principalmente as produções estadunidenses, afastadas propositadamente todas as outras, com esporádicas exceções, inclusive as produções nacionais, como ocorre no Brasil, esse gigante ainda deitado, não obstante seu “Hino Nacional”, num momento de rara infelicidade, afirmá-lo eternamente.

Em consequência dessa anomalia, o público vem sendo cada vez mais condicionado ao tipo de filme monopolisticamente distribuído, dificilmente aceitando outra espécie de película que não sejam as contrafações espetaculosas que inundam as telas.

As redes públicas de televisão e, eventual e raramente, os canais pagos, além de festivais e mostras internacionais e uma a outra produção de vídeo, têm sido os únicos veículos onde se pode assistir – não obstante raramente – filmes alheios ao circuito monopolístico distribuidor.

É o caso, entre poucos outros, do filme Kadosh (Kadosh - Aka: Sacred, Israel, 1999, significando, segundo o Gemini: Santo/Sagrado/Separado), de Amos Gitai (1950-), diretor, também, de Esther (1985), Berlim-Jerusalém (1989) e do documentário O Vale (Hawadi, 1991).

Destinado a narrar história de dois dramas, dos quais um resulta em verdadeira tragédia, Kadosh é feito com tanta sutileza e adequação que supera os limites impostos pela linguagem narrativa e dramatização do contexto humano e social no qual mergulha expositiva e criticamente analítico.

A começar que a dramatização operada na realidade não a deforma, deturpa ou secciona, mas, ao contrário, a cria imageticamente desde a verdade incrustada em seu cerne, montando e procedendo a contextualização de pelo menos duas de suas contingências mais fundamentais, ou seja, a religiosidade judaica e a opressão da mulher.

De plano, já desde a cena inicial, essas coordenadas existenciais israelenses impõem-se com a força milenar de arraigados costumes arcaicos renitentemente sobreviventes ao transcurso dos tempos, às rotações do planeta e às mutações naturais e sociais.

Ao se preparar pausada e meticulosamente para se dirigir a uma função religiosa, o protagonista, a três por dois, após cada gesto, dá graças a Deus, louvando-o por algum fato, entre eles de não tê-lo deixado nascer mulher.

A fátua exteriorização religiosa e a invectiva antifeminista funcionam como introdução e síntese do que se vai assistir daí em diante, ou, dito mais apropriadamente, do que se vai presenciar, tal a poderosa equivalência do real dessa criação cinematográfica.

Gitai tece os fios da ação formadores da teia de relacionamentos, posições e imposições com a naturalidade terrível com que essa grade sufocante e asfixiadora se manifesta em meio social de hábitos e usos obsoletos e ideário calcado em crenças, crendices e preconceitos milenares refratários a questionamentos, oposições, discussões, flexibilização e reciclagem mental e comportamental.

Cada gesto, diálogo, atitude e prática das personagens delimita o ponto onde se posicionam, de opressores e oprimidos.

Se os primeiros aproveitam dessa contingência constritiva, não deixam também, numa perspectiva libertária, de se amesquinharem existencialmente ao se fossilizarem dentro da armadura mental que os encerra e estiola. Por essa razão, não a rompem e não evoluem.

Todavia, a condição aviltante é destinada às mulheres, as quais é até mesmo vedado o acesso ao Talmud, que lhes propiciaria conhecimento direto das regras e imposições de que são vítimas.

Conquanto melhor situadas e consideradas, às mulheres católicas até hoje – e sem o seu protesto – é vedado o acesso ao ministério sacerdotal.

Os dramas fílmicos concentram-se, pois, na tiranização de duas mulheres, às quais o patriarcalismo, religiosamente cimentado, decepa os destinos, as naturais inclinações, a alegria de viver, a convivência amorosa e até a vida.

Amos Gitai, como todo grande artista, não se limita a articular a trama, tecer o drama e desencadear a tragédia, pois, ao fazê-lo, concomitante, implicitamente sempre e explicitamente muitas vezes, os submete à aguda percepção analítico-expositiva, por meio da qual os fatos e acontecimentos, ao se darem e encadearem, contêm, conduzem e expõem sua própria anomalia, desumanidade e opressão.

A crueza, a violência e o absurdo das situações, extravasando seu conteúdo, atingem o fundamento existencial de suas vítimas, manietando-as de tal modo que só a inação absoluta ou a rebeldia conseguem, num caso, elidir e, em outro, atenuar ou desviar a pressão insuportável que as acomete, destroçando seu futuro ou a própria vida.

Muito tempo ainda decorrerá e será necessário para extirpar das mentes, corações, costumes e práticas, as inauditas e pacíficas (por isso, mais terríveis) violências a que o próprio ser humano submete seus semelhantes, em seu único proveito e sob a capa de conceitos e ideários pretensa e ilusoriamente grandiosos, sem saberem que a verdade, o destino e o significado da vida humana estão nela mesma. Apenas nela, não fora, nem além. Por isso ela é tudo e é sagrada. Como diz o escritor britânico (Willian Blake), “tudo o que vive é sagrado”. O que vive.

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