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Filmes de Israel (I): Berlim - Jerusalém

Guido Bilharinho
Publicado em 19/09/2026 às 11:55Atualizado em 19/09/2026 às 11:55
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A indicação conjunta dessas duas cidades evoca série de fatos e reminiscências dolorosas para a humanidade, particularmente para os judeus.

A dizimação sistemática de judeus pelos nazistas é cicatriz aberta no corpo da História e, talvez, a marca (ou chaga) mais terrível que o século XX deixará para a posteridade.

Contudo, o filme Berlim - Jerusalém (Israel/Alemanha, 1989), de Amos Gitai (1950-), não trata desse holocausto, mas, de passagem, fixa alguns momentos que o antecedem na Berlim da década de 1930.

Porém, nem mesmo é esse seu fulcro temático, e sim a ida para a então Palestina de duas intelectuais judias, uma delas a poeta Else Lasker-Schüler.

Se a uma, a mostra chegando ao país e estabelecendo-se num kibutz, as cooperativas agrícolas judaicas de tendência socialista, no que diz respeito a Else, revela-a em suas idas e vindas, seu desassossego e certa perplexidade pelo que estava acontecendo na Europa e que ela, com aguçada sensibilidade, chegava a somatizar.

Se, neste caso, estabelece certa ambiência e inquietação intelectual berlinense, no que tange à outra protagonista, ocupa-se o cineasta na focalização da vida, convivência e labuta numa cooperativa e nos obstáculos que se antepõem a esse tipo de organização associativa.

Todavia, arrisca-se certamente a errar quem julgar que isso é efetuado linear e convencionalmente. Gitai não se restringe, como intelectual de poderosa elucubração e artista de aguçada sensibilidade, a ingênua e simplesmente narrar acontecimentos.

Ao invés disso, os toma naquilo que significam, deles extraindo seu sentido mais profundo e abrangente.

Se no kibutz articula fatos e relacionamentos com alguma marcação temporal ou cronológica, o faz com tal perspicácia e intenção, que cada gesto ou atitude das personagens extrapola sua limitação físico-temporal para projetar-se como expressivo mosaico do grande painel do século XX naquilo que, nele, a civilização humana teve de mais marcante.

E isso efetiva-se em meio à exuberante luminosidade do Oriente Médio e suas paisagens típicas, desérticas ou não.

Mas nada é gratuito. A beleza da multicor paisagem, intensamente valorizada pela luz solar, indica, por força mesmo das dificuldades, a pretensão (frustrada) de alvorescência de algo novo, não só na vinculação econômica entre os seres humanos, mas, também, embora não principalmente, porém, concomitantemente, em seu convívio pessoal e sentimental, em que homens e mulheres têm (ou deveriam ter) igual valor, posição e situação.

Já no caso de Else e seu habitat berlinense às vésperas de ser dominado por uma (ou todas simultaneamente) bestas do Apocalipse (a ascensão do nazismo ao poder), a imagem é diversa. Lúgubre, sombria, carregada de ameaças.

Ao contrário da outra protagonista, que mergulha na nova vida e suas perspectivas, Else contorce-se ao ritmo e influxo dos coleantes movimentos da serpente nazista, sentindo e pressentindo sua pestilência e perigo.

Em meio a isso, sua poesia visceral e não cerebral, que dispensa a elaboração, brotando, como ela afirma, do interior de seu ser.

Nesse passo, revela Amos Gitai sua consciência artística quando, argutamente, não só a faz expor seu método ou modo criativo, como, complementarmente, dá oportunidade a um crítico de demonstrar a fragilidade estética de sua obra, sendo, por isso, posto à força para fora do recinto por um dos admiradores da escritora, que entendeu bem o alcance e o sentido do comentário.

Aí reside mesmo a grande questão poética do século XX, mais do que dos anteriores, dada a percepção cada vez mais desenvolvida do mecanismo da criação artística, sua finalidade e destinação.

Assim, a obra que é fruto do sentimento e se destina a emocionar não chega a ser arte, visto que esta decorre de alta e exaustiva elaboração orientada por consciência artística e sólida informação estética, derivando-se e destinando-se à inteligência e à sensibilidade e tendo como finalidade produzir beleza estética.

Os primeiros são tomados e domados por sua criação. Os segundos as tomam e domam.

Tudo isso, porém, é posto e reposto por Gitai com sutileza e arte, em filme de elevado nível de concepção e realização a ser abominado pelas ululantes plateias que se deliciam com ação e violência. Seu filme nada tem de emocionante. Só de arte e verdade.

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