O cinema iraniano contemporâneo é um dos mais vigorosos (e substanciosos) do mundo.
Na natureza e na sociedade nada surge pronto e acabado (muito menos em sete dias, mesmo que se não tome essa indicação periodista em seu sentido próprio e estrito), subsistindo razões (ou pelo menos uma razão) para essa performance. Fundamentando-a, impulsionando-a e dando-lhe conveniente substrato, têm-se milênios de civilização estratificada e consolidada.
Se em muitos e importantes aspectos, essa civilização, quanto aos costumes, não se atualizou, no cinema, ao contrário, atingiu patamar universal, inclusive e principalmente por enraizado e mergulhado em seu pathos profundo.
Uma de suas características fundamentais reside, pois, no contexto social que embasa e condiciona os cineastas, que não só impõe como outorga à obra sua essência. Além, portanto, da tradição cultural que os forma e informa, encontram em seu meio, na sociedade a que pertencem e que os cerca, conteúdo e sentido. Resta-lhes dar forma estética e captar-lhe natureza e significado, reelaborando-os imageticamente. Sua obra, mercê da captura desses elementos, consiste não em simples recriação ou reflexo de realidade, mas, em criação artística.
Outra das particularidades dessa cinematografia, estreitamente ligada à anterior, traduz-se, ao mergulhar nos estratos e substratos da sociedade, na focalização e articulação de seu cotidiano destituídas de qualquer conotação espetaculosa.
Assim, substância humana e social e atos normais da vida embasam os espécimes mais relevantes desse cinema.
É o caso, entre outros, do filme A Chave (Irã, 1986), de Ebrahim Forouzesh (1939-), com roteiro de cineasta Abbas Kiarostami.
Não que o filme seja excepcional ou mesmo muito bom. Contudo, por força das peculiaridades apontadas, integra a linhagem mais significativa do cinema iraniano.
Nada mais simples nem mais, em contrapartida, autêntico do que sua construção ficcional e nem mais adequada a transmiti-la, tal qual se apresenta, do que sua configuração cinematográfica.
À simplicidade da abordagem temática corresponde linguagem apta a narrá-la.
À evidência, que essas singularidades impõem limites que impedem ao filme atingir patamares superiores de criação artística.
Todavia, no espaço dessa conformação, o filme dimensiona e expõe coordenadas essenciais, conquanto naturalística e mimeticamente, sua restrição fundamental.
Desprezando a exploração sensacionalista, revela a verdade dos acontecimentos nas possibilidades que abrem por si próprios tanto quanto por seu encadeamento.
No cinema comercial, o fato de criança de uns quatro ou cinco anos permanecer com irmão de sete ou oito meses em apartamento fechado, compartilhando esse espaço com panela de pressão em num fogão a gás ligado enquanto sua mãe vai às compras, desencadearia certamente sinistros e catástrofes facilmente imagináveis.
O grande mérito de A Chave é cingir-se aos atos das crianças, dimensionando-os apenas enquanto tais.
Contudo, nesse fazer, formata-os cinematograficamente de conformidade com o que efetivamente são.
Na confluência e obediência a essas linhas reside seu grande atributo, já que não deixa que uma se sobreponha a outra, conduzindo-as simultânea e equilibradamente, deflagrando permanente suspense por força de natural apreensão.
A qualidade mais relevante desse e dos filmes iranianos congêneres consiste na fixação dos fatos da vida cotidiana em seu significado e perspectivas, construídos concentrada e artisticamente de modo a revelar o primeiro e antever as últimas.