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Filmes do Irã (IV): A Quinta Estação

Guido Bilharinho
Publicado em 31/10/2026 às 10:38
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Não fica claro o motivo da titulação brasileira do filme A Quinta Estação (Fassloh Padjom, Irã, 1997), de Rafi Pitts (1967-).

O tema não é novidade e muito menos inédito, já que se trata de discórdia entre duas famílias, ocorrência comum entre populações atrasadas, como resíduos das lutas de clãs da antiguidade, mantidas, com maior ou menor intensidade, no decorrer dos tempos, como comprova o drama de Shakespeare, Romeu e Julieta (1597), onde a arraigada inimizade entre os Capuletos e os Montechios resulta na conhecida tragédia.

Em A Quinta Estação não se fica por menos, havendo também mortes, embora quando começa a narrativa fílmica isso já esteja no passado. Não, porém, o ódio entre os Kamalvandis (a família do noivo) e os Jamalvandis (da noiva).

Se o patriarca do lugarejo tenta até mesmo o casamento entre os líderes das duas facções, quase factível, o fato não entorpece o conflito. Pelo contrário, mais o acirra.

A cerimônia do casamento e suas consequências formam a trama conduzida com segurança, poesia e beleza imagética.

As panorâmicas captam a aldeia interiorana e a paisagem, que a orla com tanta eficácia e requinte quanto expõe nos primeiros planos os rostos dos protagonistas, cuja impressão transmitida aos espectadores reflete suas emoções, conforme induzidas pela sucessão de imagens decorrente de inteligente e, por isso, pertinente montagem.

Não só, porém, a movimentação, o distanciamento da câmera e a montagem caracterizam a realização fílmica. Outros fatores, também hábil e sensivelmente trabalhados, contribuem para sua formatação, unidade e requinte.

Entre eles, a angulação e o enquadramento da imagem, em seleção e utilização rigorosa, em que o conteúdo, ou seja, as personagens, seu vestuário, movimentação, posicionamento e espaço, focalizado desde interiores até a conformação urbana e a paisagem que a circunda, imprimem ao filme especial configuração, em que cada tomada expõe visual simultaneamente imagético e pictórico, a ponto de inúmeras cenas, se congeladas ou tornadas estáticas, sugerirem quadros picturais.

Tão importante quanto tudo isso é a maneira sutil e poética com que é articulado e conduzido o sentimento que, paulatinamente, suplanta o ódio, muitas vezes apenas impositivo, como é o caso, e atesta o monólogo da protagonista no cemitério diante do túmulo da mãe.

Nesse propósito sobressaem a delicadeza e a adequada seleção de fatos que o demonstram até sua explicitação pública na cena final.

A Quinta Estação, antes de ser imagem, pintura, paisagem (física e humana), sentimento e conjunto (sucessivo) de fatos, é poesia em sua acepção ampla de arte, sensibilidade, inteligência e beleza estética, sem o que e os quais não se constrói nem se estabelece a feição artística.

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