A Guerra do Vietnã divide e abala a população dos Estados Unidos dada sua natureza agressiva e seu significado de intervenção na política interna de outro país, para se dizer o mínimo.
O cinema reflete, de imediato, as consequências psicológicas e/ou físicas produzidas nos soldados que dela participam e conseguem retornar vivos. Trauma igual no país nunca ocorrera antes, a não ser para os sulistas vencidos na Guerra Civil da década de 1860. Boa parte desses filmes aborda esse aspecto e, em menor número, atinge o palco da guerra. Entre eles, neste caso, Apocalypse Now (Idem, EUA, 1979), de Francis Ford Copolla, Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, EUA, 1987), de Stanley Kubrick, e Pecados de Guerra (Casualties of War, EUA, 1989), de Brian de Palma.
Nenhum, porém, trata a campanha ianque nas aldeias camponesas e nos alagados arrozais vietnamitas com o grau de independência e realismo apresentado pelo filme Os Rapazes da Companhia C (The Boys in Company C., EUA, 1977), do cineasta canadense Sidney J. Furie (1933).
Despido de grandiloquência e efeitos especiais, destituído de atos grandiosos ou espetáculos adredemente montados para impressionar, o filme de Furie articula-se a partir da atuação dos componentes da citada Companhia, restringindo seu enfoque a essa participação.
O rigor metodológico e a contenção narrativa servem ao intuito claro do cineasta de revelar os fatos tais como se deram, isto é, da maneira mais verossímil e verídica possível. Essa preocupação é tão absorvente que um dos soldados, ao relatar os acontecimentos em seu diário de guerra, afirma e reafirma, ao descrever alguns deles, que “ninguém vai acreditar”.
A orientação verista do cineasta imprime à história tal desglamourização, que o cotidiano dos soldados na guerra parece simples continuidade de seu treinamento, com a diferença óbvia de que, agora, tem-se à frente, ou melhor, em todo e qualquer lugar, inimigo absconso e determinado.
Mas não são propriamente os aspectos militares do confronto que o filme mostra. Mais, melhor e mais significativo do que isso, revela é a orientação que se imprime à guerra em seus diretos reflexos no campo de batalha. Sucedem-se, então, episódios trágicos e confrangedores, verdadeiros crimes contra os próprios soldados ianques, já nem se fala contra os adversários, mesmo levando-se em conta que “guerra é guerra”.
A serviço de estatística do número de combatentes vietnamitas mortos – para efeitos propagandísticos – cometem-se barbaridades. Em torno de simples jogo de futebol disputado entre soldados da Cia. C. e vietnamitas aliados giram interesses e conveniências, emanados, todos, dos respectivos comandos, defendendo os soldados sua dignidade ao custo – mortal para muitos deles – de transferência do palco da guerra.
A narrativa, a direção e interpretação dos atores e o décor ou cenário de interiores são convencionais, porém competentes e vigorosamente desempenhados os primeiros e essencializados os demais.
O que se pretende, almeja-se e consegue-se é contar história real com a maior fidelidade possível e com o aparato infraestrutural estritamente necessário e indispensável.
Não, porém, simplesmente narrar acontecimentos, mas aqueles que, ocorrentes, organizam um quadro da guerra apto a apresentá-la como realmente se desenvolve, abolidos todos os enfeites, baluartismos e patriotadas inconsequentes, conquanto úteis ideologicamente para manter o statu quo e impelir a população à guerra para defendê-lo, mesmo que a milhares de quilômetros de distância.
Ou seja, visão crítica, independente, honesta e digna que permanecerá quando todo o lixo propagandístico e os interesses momentâneos e conjunturais estiverem varridos da História, em guerra na qual, mais uma vez, Davi venceu Golias.
Guido Bilharinho
Advogado em Uberaba e editor das revistas culturais eletrônicas Primax (Arte e Cultura), Nexos (Estudos Regionais) e Silfo (Autores Uberabenses)