O filme de gângster é, no mínimo, subgênero do filme policial, mas, dadas suas peculiares características, pode ser elevado à categoria autônoma, sem deixar, também, de ser policial.
Para realçar essa independência, basta lembrar que o gênero policial é generalizado, verificando-se em qualquer rincão da terra. Não, contudo, o fenômeno do gangsterismo, só ocorrente nos Estados Unidos e em algumas outras poucas nações.
Do mesmo modo que o cinema estadunidense criou e desenvolveu o western, que também existe em outros países, Brasil incluído, mas, nunca da sua maneira, criou, também, o filme de gângster, que daquele modo e com aquele sentido e intensidade só lá aconteceu.
O gangsterismo expandiu-se nos Estados Unidos em decorrência, se não totalmente, mas, pelo menos essencialmente, da imposição da Lei Seca, em 1920, proibindo a fabricação, venda e comercialização de bebidas alcoólicas, e que só foi revogada no primeiro governo Roosevelt, em dezembro de 1933, vigendo por treze anos, nos quais, como nunca antes nem depois, floresceu e atingiu seu ápice esse tipo de organização e ação criminosa.
Quatro filmes de gângster da década de 1930, de diferentes diretores, fornecem ampla visão do fenômeno, seja baseando-se em fatos reais, seja em personagens desse submundo, seja condensando em determinada história série de elementos encontrados esparsamente nesse ambiente delituoso.
Pela ordem cronológica, Alma no Lodo (Little Caesar, 1930), de Mervin Le Roy (1900-1987); Inimigo Público (The Public Enemy, 1931), de William Wellman (1896-1975); Balas ou Votos (Bullets or Ballots, 1936), de William Keighley (1889-1984), e Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties, 1939), de Raoul Walsh (1892-1980), timbram em focalizar o período áureo do fenômeno, justamente a década antecedente, vivenciada por seus diretores.
Tais filmes revelam que a percepção e análise do gangsterismo, que assolara principalmente Chicago e Nova Iorque, permanecem uniformes em todo o decorrer dos anos de 1930, significativamente surgindo a primeira dessas películas em 1930 e a última em 1939.
Conquanto haja variação direcional, o background sobre o qual se esbatem as ações fílmicas e os décors pelos quais se movimentam as personagens são homogeneamente realizados.
De igual modo, não obstante diversas as personagens, não se singularizam suas tipologias, atitudes pessoais e conduta geral, chegando a ponto de se repetirem os atores principais: Edward G. Robinson no primeiro e terceiro; James Cagney no segundo e quarto; Humprey Bogart, não ainda um astro, no terceiro e quarto.
Tirante certas particularidades, e o maior ou menor vigor direcional notado em alguns deles, pouco se distinguem esses filmes uns dos outros.
Pelo menos três causas subjazem para conformar tais realizações num mesmo padrão de qualidade. A tecnologia, a orientação comercial dos estúdios e a eleição da mesma temática.
Tais fatores reunidos e atuando juntos suplantam quaisquer outras possíveis influências de sentido singular ou pessoal.
Mesmo que se possam notar – e notam-se – as referidas peculiaridades distintivas e tonalidades diversas de segurança, visão e vigor direcionais, elas não são suficientes para suplantar a força determinante daqueles elementos uniformizadores que, por isso, se impõem e dão o tom desses filmes.
Dois deles pelo menos (Inimigo Público e Heróis Esquecidos) evidenciam-se por mostrar a origem e a formação de seus protagonistas. Se a esta o primeiro a busca na infância, como tendência inata, o último já a revela imposta pelas condições sociais objetivas de desemprego e desamparo dos jovens soldados que retornam ao país depois de terem lutado na Primeira Guerra Mundial de 1914-1918. Por coincidência, as personagens principais são encarnadas pelo mesmo ator, James Cagney.
Se com exceção de Balas ou Votos, os demais cingem-se a perlustrar itinerários criminosos individualizados, o filme de Keighley, o menos conhecido e considerado dos quatro diretores, além de colocar em primeiro plano e realçar como herói um policial – e não um gângster como os demais – ainda se caracteriza por centrar a trama na ação de associação criminosa e não de indivíduo voluntarioso e que por si abre caminho a ferro e fogo. Em Balas ou Votos, ao contrário, o voluntarismo pessoal, mesmo que baseado em estrutura montada para satisfazê-lo, é substituído por organização que utiliza e maneja os indivíduos para servi-la.
É obvio, dadas a gênese e a orientação comercial de tais filmes, que sua amostragem e análise do fenômeno em questão não ultrapassem o naturalismo fixador de aparências e de ações externalizadas pelas personagens. Pela mesma razão, sua linguagem pauta-se por convencionalismo, conquanto eficaz, ao instrumentalizá-la como veículo expressional para atingir, ser compreendida e conquistar o público a que se dirige, o que acontece, com idêntica intensidade, com o tratamento temático.