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Filmes policiais (III): O Falcão Maltês

Guido Bilharinho
Publicado em 21/03/2026 às 11:21
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Certa publicidade insiste em afirmar que o filme O Falcão Maltês ou Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, EUA, 1941), de John Huston (1906–1987), é, além de ser filme noir, o primeiro deles.

Contudo, não chega a ser nem uma coisa nem outra.

O noir não é simplesmente variante do filme policial, caracterizando-se por série de requisitos que o distingue (e o destaca), entre eles, a obscurecida tonalidade dos décors e de cenas urbanas externas, o recorte psicológico, em que esses elementos se fundem em amálgama que se inter-relaciona e se interinfluencia, de modo a formar conjunto indissociável.

Não é o caso de O Falcão Maltês, que, se timbra por tons enegrecidos, não se respalda em contextualização psicológica e ambiguidade comportamental. Ao contrário, o detetive Sam Spade (Humphrey Bogart), protagonista do filme que está no centro de pelo menos 95% (noventa e cinco por cento) das cenas, não é trabalhado nem apresentado pelo corte psicológico. Muito menos as demais personagens. O máximo que ocorre consiste em manifestações emocionais, a exemplo da reação da secretária desse detetive face à morte de outra personagem, ou comportamentais, como seu modo de se dirigir ao patrão.

         No mais, é filme policial marcado por ação até certo ponto trepidante, característica imposta pelo próprio modo de ser (não só de interpretar) de Bogart.

Quanto à precedência cronológica no gênero, a Encyclopedie du Film Noir, de Alain Silver e Elizabeth Ward (Paris, editions Rivages, 1987), aponta como primeiro filme noir a Underworld (EUA, 1927, Les Nuits de Chicago no título francês), de Josef von Sternberg, que, “très insolite pour l’époque, peut être considéré comme le premier film de gangsters moderne”, ponderando, porém, que “même si Les Nuits de Chicago n’est pas un authentique film noir, la claustrophobie, l’aliénation et la corruption du milieu en font en tout cas un important précurseur” (p. 294). Além dele, seguem-se outros onze filmes anteriores a O Falcão Maltês no catálogo cronológico do gênero.

Não se pode deixar de considerar, no entanto, que a fama do filme de estreia de Huston se deve a qualidades que escapam à definição do noir, como dinamismo da ação, seguras direção e interpretação dos atores e o mistério que se instala desde o início, acompanha e permeia o filme até quase o final.

Por fim, se a referida Enciclopédia o inclui no rol do gênero, não deixa de ponderar, no entanto, que se “la plupart des films noirs sont, par nature, désespérés, mais les meilleurs accordent à leurs personnages les plus névrosés une authentique dimension humaine qui leur donne une fascinante ambiguité”, não acontece o mesmo com O Falcão Maltês, “on ne trouve aucune nuance de gris”, além de que “les codes de l’honneur qui motivent profondément les autres privés du film noir, ne sont ici que des paroles creuses”, isto é, vazias (p. 149).

 Guido Bilharinho

Advogado em Uberaba e editor das revistas culturais eletrônicas Primax (Arte e Cultura), Nexos (Estudos Regionais) e Silfo (Autores Uberabenses)

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