A temática policial comumente é utilizada no cinema para a realização de filmes comerciais. Mais até que outros gêneros e temas.
Contudo, uma espécie de filme policial é menos contaminada por esse viés. É o noir, tipo especial de filme não exclusivo da referida categoria, mas quase sempre dela.
Caracterizado pelo décor escuro, em que a luz é utilizada equilibradamente para a composição expressiva do ambiente – e não apenas como mero artefato de iluminação –, o noir ultrapassa os limites da história e da ação para atingir patamares mais consistentes e elevados.
Representa não só visão particular do mundo, mas, sob o ponto de vista artístico, maneira peculiar de expressá-la.
Segundo Carlos Pinheiro Júnior, “toda temática noir, em qualquer de suas variantes – negativista, conformista ou violenta –, é fundamentalmente pessimista” (in O Cinema dos Anos 80, organizado por Amir Labaki. São Paulo, editora Brasiliense, 1991, p. 44 ).
Contudo, nesse sentido, seu aspecto mais relevante, juntamente com o peculiar tratamento formal, é o conteúdo psicológico, quase sempre presente, quando não sempre.
É o caso de Rancor (Cross-fire, EUA, 1947), do canadense Edward Dmytryk (1908-1999).
Nele, não é só a ação a condutora da trama, mas, também, sua motivação. Não é apenas a relação gato (delegado) e rato (criminoso), de perseguição e cerco policial, o que interessa e se expõe.
Mais importante, talvez, que isso são o móvel do crime (antevisto este por meio de projeção das sombras do criminoso e da vítima na parede) e a atitude do criminoso.
Não se restringe o cineasta a focalizar a causalidade individual que provoca e condiciona essa conduta. Interessa-lhe – e os limites da narrativa impõem – menos a problemática pessoal do criminoso que sua repercussão social. Mais o ser humano em situação e em ação do que em si mesmo, restrito a seu universo particular.
Mas, ao lado do evolver do enredo, da habilidade de se mostrar por indícios, indireta e paulatinamente, a autoria do assassinato, sobressai também a revelação da estrutura psicológica das principais personagens e de sua contrapartida comportamental, notadamente do criminoso e do protagonista, a quem aquele maliciosamente direciona as suspeitas.
Assim, o tema e seu sentido e significado caminham juntos, já que, sem o primeiro, estes, no caso, não poderiam existir, embora o contrário seja o costumeiro. Isto é, história destituída desses e de quaisquer outros atributos.
Não se tem em Rancor, pois, apenas trama policial, mas sua própria razão de ser na demonstração das atitudes que a determinam e ocasionam. O que à primeira vista pode parecer um filme simples apresenta, ao contrário, certa complexidade na ênfase da focalização do conteúdo antes e mais do que na ocorrência factual.
Nesse sentido, o título brasileiro, Rancor, explora o conteúdo, enquanto que o original, Cross-fire (fogo cruzado), traduz a ação.
Do ponto de vista da linguagem cinematográfica, a utilização de seus elementos e dos recursos da câmera é não só hábil como sensível e dosada na medida das necessidades fílmicas, desde a gestuação das personagens até seu enquadramento cinematográfico e o tom lúgubre da ambientação.
Assim, tanto do ponto de vista do tema como da forma, não se reconstitui simplesmente a realidade, mas a recria.
No mais, Rancor não é filme noturno apenas por transcorrer praticamente à noite, mas, notadamente, pela soturnidade com que focaliza a condição humana num de seus momentos cruciais.
Guido Bilharinho
Advogado em Uberaba e editor das revistas culturais eletrônicas Primax (Arte e Cultura), Nexos (Estudos Regionais) e Silfo (Autores Uberabenses)