Um ensaio que é um mundo. Que descobre, concentra e expõe um mundo. O mundo humano. Ensaio pequeno, despretensioso, objetivo. E sereno. Mesmo diante de espantosas revelações: Tempos de Guerra e de Morte (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2021, tradução de Petê Rissatti), de Sigmund Freud (Áustria, 1856-1939), originalmente intitulado Considerações Contemporâneas Sobre a Guerra e a Morte (1915).
Por ele perpassam, com a naturalidade propiciada pelo conhecimento e por sua imposição incoercível, as condições e contradições fundamentais do humano, do ser que é a mais alta criação da natureza e que, nem por isso, deixa de possuir as maiores abjeções e cometer as piores maldades e as mais acerbas crueldades, inclusive, coletivamente, com as guerras.
Segundo Freud, a consciência moral do indivíduo reside no “medo social”, porque “onde a comunidade suprime a recriminação, cessa a repressão dos apetites malignos e as pessoas cometem atos de crueldade, malícia, traição e brutalidade” (p. 21).
Essa proposição é tão grave, tão acusatória, que dificilmente é aceita, já que aceitá-la é admitir sua possibilidade e ocorrência. Uma das “defesas” da psique humana é justamente a pretensão de se julgar bom como fruto de sua consciência moral.
Todavia, essa “consciência moral” não existe ou desaparece na guerra e, antes, na causa de sua própria eclosão, como também e, em alto grau de sadismo, crueldade e ignomínia, nas repressões das ditaduras, com suas prisões, torturas e mortes, como são exemplos as ditaduras militares latino-americanas, todas apoiadas, insufladas ou impostas pelos Estados Unidos em seu único e exclusivo proveito.
Para Freud, “nunca um evento destruiu tanto dos preciosos bens comuns da humanidade, confundiu tanto das mais esclarecidas inteligências, degradou tão fundamentalmente o que havia de elevado” (p. 13), quanto a Primeira Guerra Mundial, porque a guerra “nos despoja das camadas posteriores da cultura e permite que o humano primevo reapareça em nós” (p. 52).
Além disso, a guerra, “com uma fúria cega, derruba tudo o que está no caminho, como se não devesse haver futuro nem paz entre os seres humanos depois dela. Rompe todos os laços de comunidade entre os povos em luta e ameaça deixar uma amargura que tornará impossível reconectá-los por muito tempo” (p. 19).
As guerras, como se sabe, são motivadas, essencialmente, por questões econômicas, conquanto geralmente se disfarcem e vêm encobertas por pretensas causalidades nobres e edificantes.
Não obstante isso, há algo obscuro e preocupante no ser humano que o leva a agressões e crueldades, acasalando uma e outra dessas possibilidades.
Sob esse aspecto, Freud apresenta duas versões que se contradizem, se autoeliminando.
De um lado, considera que “a essência mais profunda do ser humano consiste em impulsos pulsionais” e que eles “não são, em si, nem bons nem maus” e que “somos nós que classificamos a eles e a suas expressões dessa forma”.
De outro, admite que os impulsos tidos como maus, como egoísmo e crueldade, “figuram entre esses impulsos primitivos” e que “os estados primitivos sempre podem ser restaurados; o psíquico primitivo é imperecível no sentido mais pleno” (p. 31) e, ainda, que tais impulsos primitivos podem ser ativados nos adultos, embora inibidos e “direcionados a outras metas e âmbitos”, reconhecendo que “as inclinações malignas do ser humano vão sendo erradicadas nele e, sob a influência da educação e do ambiente cultural, substituídas [substituídas, veja-se bem] por inclinações para o bem” (p. 23), mas, como dito “sempre podem ser restauradas”.
Os ambientes de guerra e de ditadura propiciam e até impõem essa restauração.
Já sobre o Estado, que o jurista brasileiro Ronaldo Cunha Campos, ecoando lúcidos entendimentos, afirma não representar a sociedade, mas ter interesses próprios, Freud antevira essa possibilidade ao dizer que o Estado proíbe “os indivíduos de usarem a injustiça, não porque quisesse aboli-la, mas porque queria monopolizá-la” (p. 20).
Quanto às ilusões, que adoçam e embalam as vidas dos seres humanos, ele afirma que “nos são recomendadas pelo fato de nos pouparem sentimentos de desprazer e nos permitirem, em seu lugar, gozar de satisfação”, mas, que, “em algum momento, elas se chocam com uma parte da realidade na qual se despedaçam” (p. 22).
A inteligência e a racionalidade, por sua vez, não constituem, segundo Freud, poderes independentes da vida sentimental, só agindo confiavelmente quando afastadas “das influências dos fortes impulsos emocionais” e que “as pessoas mais astutas se comportam como imbecis assim que o discernimento exigido enfrenta uma resistência emocional” (p. 33), o que explica as surpreendentes atitudes que muitas vezes o ser humano exercita.
Por fim, além de tantas outras colocações de Freud nesse pequeno livro, mas grandioso e riquíssimo de constatações e ensinamentos, ainda sobressai a de que “nosso inconsciente não acredita em sua morte, ele se porta como se fosse imortal” (p. 47).