ARTICULISTAS

Montezuma

Guido Bilharinho
Publicado em 30/01/2025 às 19:59
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No início do século XX e pelo decorrer das décadas seguintes, pontificou em Uberaba o médico e escritor goiano João Teixeira Álvares (1858-1940, pai e avô, respectivamente, dos governadores de Goiás Pedro Ludovico e Mauro Borges), cujas atividades na cidade estenderam-se de 1899 a 1940, ano em que faleceu. Dele se encontra ligeira biografia no livro físico Personalidades Uberabenses, onde se registra, entre tantas de suas inciativas, a de ter fundado em Uberaba, em 1900, em pleno regime republicano, o Partido Monarquista, de ter inaugurado em 1905 o primeiro hospital individual da cidade (a Santa Casa já existia em funcionamento desde 1898) e, ainda, de ter fundado o Círculo Católico e editado o jornal-revista em cores Jesus Cristo.

Além de tudo que foi e fez na medicina e na militância religiosa, dedicou-se ao teatro, escrevendo peças, chegando a construir um nos jardins de sua residência para encená-las.

Entre elas, Montezuma, que se informa escrita em 1900, porém mais certamente por volta de 1909, e não em Goiás como expresso na orelha da edição da peça realizada pelo Instituto Goiano do Livro em 2002, já que naquela época o autor residia em Uberaba.

Montezuma (que se encontra editada eletronicamente nos blogs autoresuberabenses, blogspot e wordpress) constitui tragédia histórica formulada em padrões teatrais clássicos.

A história é a conquista do México por Fernando Cortez, nuançada, como sempre ocorre nas obras de gênero, por laivos ficcionais.

Contudo, por lastreada em seus lineamentos gerais em dados históricos, o autor assinalou nas indicações para encenação o que é comprovadamente real, permitindo ao leitor/espectador visão balanceada do verídico e do imaginado.

A peça é magnificamente bem escrita e atilada, equilibrada e harmoniosamente construída em célere sucessão fática, dividida entre relacionamentos pessoais e atitudes, atos e fatos de transcendência histórica, desfilando em sequência vibrante até atingir o clímax final, aguardado pelo leitor/espectador com crescente interesse.

Montezuma é, por isso e por sua expressiva virtualidade dramatúrgica e teatral, um dos mais bem escritos e estruturados dramas do teatro brasileiro.

Porém, por ter sido escrita no interior do país, permaneceu e permanece desconhecida pelos historiadores e críticos do teatro brasileiro. Aliás, como ocorrido com tantas outras obras literárias e produções artísticas em geral elaboradas em iguais condições.

Nesse caso, bastando lembrar o acontecido com a primeira peça teatral (O Colégio de Dona Abelha) escrita em Uberaba nos meados da década de 1830 por Antônio Cesário da Silva e Oliveira, inaugurando juntamente com a obra de Martins Pena no Rio de Janeiro o teatro de costumes no Brasil, bem como com o ocorrido com o primeiro romance brasileiro (e, quem sabe, mundial) a ter o futebol como tema central, O Grande Esportista, escrito e publicado em Uberaba pelo escritor (e engenheiro civil) Pascoal Toti Filho, em 1922.

Se esses isolamento e omissão afetam e prejudicam as obras artísticas produzidas fora do eixo Rio-São Paulo, marginalizando-as e não as inserindo no contexto cultural geral do país, também o patrimônio cultural do Brasil resta prejudicado, falho e falto, visto que mutilado e restrito apenas ao que foi e é realizado na citada paragem, exclusivista com pretensões hegemônicas.

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