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O cinema de Carlos Diégues (I): Joana Francesa

Guido Bilharinho
Publicado em 22/02/2025 às 10:55
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A extensa, para os padrões brasileiros, filmografia de Carlos Diégues (Maceió/AL, 1940 - Rio de Janeiro/RJ, fevereiro 2025) reparte-se em espécimes de variada categoria e níveis qualitativos. Não há negar que, nos anos 90, deixou de apresentar qualquer obra de expressão.

Joana Francesa (1973), sob o ponto de vista de segurança direcional e plena consciência de um objetivo, é de seus filmes mais vigorosos, livres e densos.

Sobre o fio narrativo de amor sazonado de latifundiário do interior alagoano por prostituta francesa de forte personalidade, Diégues desnuda e expõe tragédia familiar e individual.

Num mix de realismo cru com laivos atenuados de realismo mágico no que tem de absurdo incrustado no interior mesmo do concreto, do tocável e do material, constrói mundo derrotado, triturado e torturado pela emergência dominadora de novas forças produtivas.

Pari passu com a deliquescência econômica, desenvolve-se e aprofunda-se a decadência social e moral do núcleo familiar.

Nesse processo inestancável, de impossível sobrestamento, visto provocado e desatado por forças emergentes inexoráveis, procedem-se concomitantemente o enfraquecimento e o delíquio das bases que sustentam e sustêm o arcabouço das antigas formas de exploração econômica.

Como se sabe, se a infraestrutura em que se apoia a arquitetura econômica, social e cultural não mais corresponde nem responde às suas exigências e necessidades, todo o edifício superestrutural em que se assenta cai em decadência, retrocesso, estertores e paralisações.

Nessa situação, os laços familiares esgarçam-se face à inexistência de perspectivas, desfibrando-se e entrechocando-se. Então, as atitudes, comportamentos e reações expõem a agonia de suas vítimas para as quais não há mais limites, vez que abaladas suas bases de apoio e defesa.

O grupo familiar entra em pane tal qual aeronave desgovernada, sem rumo e destino. Um a um, seus componentes perdem o elã vital e o sentido da existência, entregando-se às mãos do destino, seja por perda da vontade de lutar e viver, seja pela eliminação pura e simples.

O serôdio amor do protagonista não passa, por sua vez, de corda lançada às margens da vida em compulsivo exercício ou tentativa de salvação.

A derrocada familiar instrumentada pelo cineasta multiplicou-se pelo país em variadas e diversificadas manifestações. Todas, porém, derivadas do surgimento de novas forças produtivas que vieram substituir as antigas práticas econômicas e, nesse processo, primeiro marginalizando-as, depois sufocando-as e, finalmente, esmagando-as.

A obra ficcional de Cornélio Pena apresenta, na literatura brasileira, talvez o mais pungente testemunho desse fenômeno.

No cinema, ao que se saiba, a palma, ou pelo menos um de seus exemplos mais consistentes, dolorosos e conscientes é constituído por esse filme de Diégues.

Nele, além da segurança direcional, já apontada, sobressaem os elementos fundamentais da realização fílmica, desde enquadramentos da câmera, décors e locações externas, direção e interpretação dos atores e belas imagens.

Além disso, como resultado direto da concepção temática traduzida na formulação cinematográfica, salientam-se e avultam rigor, contenção e densidade dramática, que solidificam e dão consistência à tragédia familiar e pessoal desencadeada.

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