Constitui engano pretender-se ou considerar-se que as obras de ficção (romance, conto, teatro e cinema) devem conter e contar uma estória. O engano é maior ainda quando se quer que essa estória seja pontilhada de grandes lances e de atos e acontecimentos em profusão.
Para agradar esse tipo de público, muitos autores desviam-se de rotas mais eficazes, perdendo-se em emaranhados de intrigalhadas e ações contínuas ou frenéticas de personagens exacerbadas.
É bem verdade que a maioria deles não atinge a categoria autoral, não passando mesmo de artesãos, ora mais ou menos hábeis, sendo suas obras reflexos o mais possível exato do grau de sua (in)capacidade.
Não é este o caso de Carlos Diégues (Maceió/AL, 1940 – Rio de Janeiro, fevereiro 2025), que se enquadra, em Chuvas de Verão (1977), na primeira hipótese, ao acrescentar ao cerne de seu filme eventos e circunstâncias extraordinárias, inusuais e, por isso, meramente pretextuais.
Em consequência disso, à semelhança do que acontece com inúmeros outros, têm-se dois filmes em Chuvas de Verão ou, pelo menos, dois nítidos níveis (ou desníveis) de realização.
Um, composto dos aludidos fatos, que, para constituírem chamariz e adoçar o filme para os paladares adocicados e nada exigentes do público, não poderiam deixar de ser de caráter criminal e escandaloso.
O filme, pois, é recheado de três grandes episódios, dois deles de cunho policial, coincidentemente acontecendo simultaneamente na própria residência do protagonista e na de seu vizinho (e amigo) de frente.
O caso é que explodem na cidade (Rio de Janeiro) duas momentosas ocorrências dessa natureza, envolvendo, uma, o rompimento à bala de cerco policial por parte de afamado meliante, e outra, a circunstância de ter desaparecido menina de seus nove anos, cujo ignorado paradeiro comove a cidade.
Não é que tais fatos estouram ou caem no colo justamente do protagonista, simples servidor público suburbano, pacato, honesto e bom?
Além disso, aduz-se a essas coincidentes extravagâncias do destino, o escândalo de circuito familiar interno entre sua filha e o marido.
Tudo isso representa forte concessão ao espetáculo, ao divertissement, à tendência das pessoas para saber e acompanhar escândalos, alimentando sua curiosidade por atos e episódios inusitados, deprimentes e até mórbidos.
Essa a face ostentatória do filme, as peripécias que se acrescem a seu fio narrativo central e que, além de não lhe fazerem falta, ainda funcionam como derivativos, desvios ou amortecedores.
Sob a atilada direção de Diégues não deixam de ser bem armadas e conduzidas, mas, sempre obediente à finalidade para a qual foram criadas e desenvolvidas de conformidade com a sua índole espalhafatosa.
Tais penduricalhos, por incrível que possa parecer, não chegam a atingir e comprometer o verdadeiro filme que se tem em Chuvas de Verão. E que é, como se percebe desde a cena inicial, a simples estória do aposentado suburbano no dia de sua jubilação e nos que se lhe seguem. Suas atitudes, modo de ser, reação aos acontecimentos, maneira de se relacionar com amigos e vizinhos. Fundamentalmente, seu modo singelo, direto, desafetado e autêntico de existir, estar, agir e se expressar.
Esse o filme, o grande filme que é Chuvas de Verão, um dos mais notáveis do cinema brasileiro. Só ele, nunca as rebarbas e incongruências referidas que se lhe ajuntaram em atendimento ao vezo e viés do espetáculo, superficial, insignificativo e olvidável como toda realização dessa natureza.
A arte, em Chuvas de Verão, é apenas a atuação do protagonista com sua espontaneidade, gestos comedidos, lentos passos de velho, olhares cansados pelos trabalhos e os dias (que evocam o notável título de livro do poeta grego Hesíodo) e sua perplexidade diante de certos fatos.
Por esse motivo, por causa dessa presença singular, é que os eventos apelativos que o atropelam no mesmo espaço e na mesma ocasião não o contaminam, não conseguindo tragá-lo no vórtice em que giram.
Ao contrário, todos eles submetem-se à sua ascendência, não passando de borboletas esvoaçando à volta das flores sem, no entanto, feri-las ou conspurcá-las, mantidas, por isso, íntegras e naturais.
A agudeza e perfeição elaborativa dessa personagem e seus pequenos atos e preocupações, eliminada a passageira e superficial efervescência imposta pelos aludidos acontecimentos, lembra a construção ficcional de Vida Ociosa (1920), o excelente romance de Godofredo Rangel (1884-1951), articulado e centralizado em torno de ações, gestos e atitudes mínimas e rotineiras da existência, mas, por isso mesmo, encantadoras em sua fundamentalidade humana.
A interpretação de Jofre Soares na pele do recém-aposentado insere-se entre as grandes performances da arte, tais sua adequação e perfeição. Ao que se sabe, nem o diretor e nem o ator tiveram, em qualquer outra oportunidade, tão eficaz e brilhante desempenho nessas atividades e direção de interpretação e sua correspondente efetivação.
Em suma, em Chuvas de Verão coexistem dois filmes. Um descartável, feito para as grandes plateias. Outro, definitivo, elaborado para usufruto da inteligência e da sensibilidade.
A questão é saber distingui-los, separando o trigo do joio.