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O cinema de Carlos Diégues (III): Bye Bye Brasil

Guido Bilharinho
Publicado em 06/03/2025 às 18:59
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Conquanto semelhantes em seus propósitos ilusionistas e de diversão do público, nada tão diferente entre si do que a trupe mambembe de Bye Bye Brasil (1979), de Carlos Diégues (Maceió/AL, 1940 - Rio de Janeiro/RJ, 2025), e as trupes ou mesmo simples espetáculos de ilusionismo de Fellini. Nem países tão diversos, como Brasil e Itália.

Se em Fellini as exibições dessa natureza e os próprios artistas vêm banhados de certa aura romântica, alegre e, às vezes, saltitante, acentuada pela música (exceto em La Strada), em Diégues essas manifestações são marcadas (e tisnadas) de necessidades, premências, decepções e certa amargura.

O grupo brasileiro atua em larga área geográfica que abrange o Nordeste e estende-se até a Amazônia, para onde se dirige expulso pela pobreza e concorrências várias, ora da televisão ora das manifestações religiosas.

Nada de romântico, nenhuma alegria verdadeira ou satisfação plena, nem, efetivamente, alegria e satisfação simplesmente.

O Nordeste de Diégues é destituído de radicalizações e paroxismos. Não é, pois, o Nordeste mítico ou místico, mas, o que está lá, feito de atos e concretizado em fatos simples, cotidianos, sem rasgos de heroísmo ou de messianismo religioso. Simplicidade e cotidianidade. A realidade dura, cortante. A pobreza. Nem bandidos, nem santos, nem heróis. Porém, elementos do povo, presentes ora nas sessões circenses da trupe, ora assistindo televisão no único aparelho do lugar, ora em procissões religiosas.

Mas, se o povo aparece, se a arquitetura local por vezes assoma à tela, esses elementos não passam da moldura do quadro onde age, vive e agita-se o pequeno grupo de artistas que protagoniza a ação fílmica.

Com o prosseguimento da narrativa, revelam-se a natureza e a estrutura do relacionamento ocorrente entre as personagens, ressaltando a desenvoltura, a franqueza, a ousadia de cada uma e a ausência dos usuais conceitos e preconceitos que cercam os envolvimentos sentimentais, permitindo certo tráfico amoroso.

O amoralismo que domina o protagonista e sua companheira deságua na consentida e impelida prostituição desta motivada por premente situação de penúria, sem prejuízo dos laços amorosos e de mútuo respeito entre ambos, o que destoa visceralmente de arraigados costumes e, principalmente, de generalizado sentimento de posse, que não é característica nacional ou regional, mas, do ser humano em geral, provavelmente enquanto em determinado estádio de desenvolvimento.

Se o filme se centraliza em torno do grupo, suas andanças absorvem novos elementos e paisagens. Da aridez nordestina, cuja paisagem não é focalizada, a não ser em rápido instantâneo de coqueiral numa praia, passa-se à umidade amazônica, com florestas, rios e chuvas.

No caldeamento e agitação de Altamira, na Transamazônica, incorpora até mesmo toda uma tribo indígena aculturada, que não dispensa o rádio e quer viajar de avião.

A última etapa fílmica é Brasília, o desaguadouro, à época, de largas camadas da população de várias (ou de todas as) partes do país.

A fisionomia de cidade não aparece justamente porque, pelo menos até então, não se configurara.

O filme constitui, pois, panorâmica amostragem da geografia física e humana das paragens percorridas pelo velho e sacolejante caminhão da trupe, que se admira mover-se, mas, espera-se, a todo momento, não apenas estacar de repente, mas, desmontar-se.

Nessa dupla linha de atuação fílmica (o grupo e o contexto social), biparte-se a narrativa, mostrando concomitantemente as reações e decisões na interação que estabelecem, com influência do segundo sobre o primeiro, condicionando e direcionando seus passos. Contudo, em nada influindo no convívio das personagens, balizado e conformado por outras variantes, sentimentais e emotivas.

Já o aventureirismo do grupo, outra de suas características, mergulha raízes na dupla causalidade contingencial e temperamental, com a primeira o impelindo sempre para frente e para longe e a última referendando e sancionando o inevitável.

A linguagem cinematográfica, no entanto, não acompanha a ousadia humano-geográfica da ação, que, além de tudo, mostra o Brasil estratificado do Nordeste em contraponto com o país pulsante, caótico e turbilhonante das então novas fronteiras econômicas e humanas.

A imagem correta, e suficiente, limita-se, no mais das vezes, a seguir o movimento à sua frente, menos quando seleciona, corta e efetua pertinente montagem do material colhido, exibindo flagrantes da vida estuante e espacialmente ilimitada, condicionada, porém, pelas impositivas restrições econômico-sociais predominantes no país.

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