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O Discurso do Método

Guido Bilharinho
Publicado em 06/10/2026 às 17:44
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Descartes (La Haye/França, 1596 – Estocolmo/Suécia, 1650) não pretendeu ensinar “o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira me esforcei para conduzir a minha” (Discurso do Método, apud Descartes, coleção “Os Pensadores”. São Paulo/SP, Abril Cultural, 1979, 1ª Parte, p. 30, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior).

Com isso, deliberadamente, restringiu a amplitude e o alcance de seu ensaio, que, mesmo assim, por força dos requisitos metodológicos que expôs, do estilo direto e fluente do texto e do relato de sua própria experiência de investigação e da busca da verdade, atingiu notoriedade e influência permanentes e universais.

Presidida a lógica até então por “grande número de preceitos”, Descartes julgou “que bastariam” quatro requisitos para conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências “desde que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los” (op. cit., 2ª Parte, p. 37).

Formulou, então, quatro princípios ou requisitos norteadores para atingir os fins colimados, consistentes em evidência, análise, ordem e enumeração, a respeito dos quais disserta.

Num mundo intelectual e científico ainda preso às normatividades da Lógica e de toda a tradição que construiu e implementou no decorrer de séculos, atravessando, inclusive, os mil anos do medievo europeu, a proposição cartesiana representou considerável avanço da prática racional investigativa e analítica, promovendo a liberdade intelectual do indivíduo, daí em diante tornado pessoalmente responsável pelo que pensasse e expressasse.

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Contudo, o primeiro desses princípios, justamente o básico (a evidência), apresenta-se precário e insuficiente para o objetivo pretendido de orientar a razão e procurar a verdade.

Ao propor que esse preceito, “o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal” (op. cit., 2ª Parte, p. 37), transfere para a sua subjetividade e o estado e condições de seus conhecimentos o poder de julgar se algo (fato, ação, ideia, proposta) é evidente ou não.

A evidência não pode se sujeitar a tal mecanismo limitado e condicionado, devendo manifestar-se e impor-se somente pela investigação dos fatos e da realidade. Ou seja, ao invés de prevalecer previamente, deve resultar de experimentação empírica, análises, comparações, testes e reflexões.

Por sinal, em 1633, em sua contemporaneidade, Galileu foi condenado pela Inquisição justamente por contrariar e negar a evidência, que induzia, sem exame, investigação e conhecimento a crença de que o sol girava em torno da terra.

A fragilidade e a precariedade desse requisito da evidência patenteiam-se claramente no próprio ensaio sobre o método, ao admitir Descartes a existência de Deus e da alma, baseado simplesmente (ou simploriamente?) em que o céu, a terra, a luz, o calor e “mil outras” coisas não podem ser tiradas do nada, o que, para ele, seria “manifestamente impossível” (op. cit., 4ª Parte, p. 47), entendimento que não passa de suposição sem alicerce em fatos.

O pensador e economista britânico David Ricardo já afirmou que a verdade não está em nossas cabeças, mas na realidade.

No caso, Descartes, conquanto portador de inteligência poderosa e articulada, não atinou, ao formular sua metodologia, para a indispensabilidade de se examinar e investigar a realidade para além das simples, e muitas vezes enganosas, evidências (aparências), conquanto reconheça que há “apenas uma verdade de cada coisa” (op. cit., 2ª Parte, p. 40), mesmo que nessa questão a ciência, à época, ainda não houvesse condições de encontrar a verdade de cada coisa, o que deu e dá vaza a quem se recusa a exercitar a investigação, o raciocínio e a reflexão, a conjeturas e suposições, a exemplo de sua afirmação de “que a nossa alma, ou seja, essa parte distinta do corpo” (op. cit., 5ª Parte, p. 55), o que não passa de crença, mesmo porque como se enquadrar os loucos de todo gênero e os acometidos pelo mal de Alzheimer? O que jaz afetado e conturbado nesses casos, a alma ou o corpo? Se a alma, em que condições adentrará e atuará na vida eterna acreditada e proclamada pelos crentes? Se o corpo, quem então efetivamente comanda e constitui o ser humano? Ou o que se entende por alma não seja mais do que a propriedade cerebral humana de raciocinar?

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