ARTICULISTAS

Ainda dá tempo

Heloísa Helena Valladares Ribeiro
Publicado em 26/06/2026 às 17:48
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Caros leitores, resolvi começar citando o escritor brasileiro Gustavo Lacombe: “Daqui a cem anos, quase todas as pressas terão virado silêncio. Os olhos que hoje te julgam também passarão. Nada disso fica. Nem a vergonha sobrevive inteira ao tempo. O tempo apaga o orgulho e o fracasso com a mesma calma. Quase tudo o que hoje te assusta vai perder o peso. Isso assusta. Mas também pode libertar”.

Quando jovem, não acreditava que chegaria aos sessenta anos, idade estabelecida pela legislação brasileira, no Estatuto da Pessoa Idosa, Lei nº 10.741/2003, que protege a pessoa com direitos fundamentais como saúde, transporte gratuito, prioridade de atendimento e amparo social. No dia 15 de junho é comemorado o Dia Mundial da Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Esse dia foi estabelecido pela ONU em 2011, para capacitar a sociedade a olhar para o idoso (a), de forma a denunciar e combater a violência praticada contra os seus direitos.

O Brasil tem em média 32,1 milhões de pessoas idosas (60 anos ou mais). Esse contingente representa 15,8% da população brasileira e confirma a tendência de envelhecimento populacional acelerado. Quando jovem, não queria ouvir ou falar sobre o assunto; hoje necessito a cada dia me preparar para o envelhecimento, principalmente o cuidado com a saúde da mente.

Trabalhar a favor do idoso pode muitas vezes nos fazer deparar com nosso futuro: Como canta Hyldon em As Dores do Mundo: “E eu vou esquecer de tudo/Das dores do mundo/Não quero saber quem fui, mas sim o que sou” (HYLDON - 1975).

Cito Uberaba com registro de casos de violência contra o idoso em 2026. Entre os meses de janeiro e maio, foram feitas 139 denúncias pelo Disque 100, que resultaram em 859 violações de direitos identificadas. Isso é seríssimo. Na maioria das ocorrências, os principais suspeitos são os próprios filhos das vítimas, com a prática da violência no lar. Os casos mais comuns são com mulheres de 80 a 84 anos. Os tipos foram violência psicológica, maus-tratos, abuso, negligência e privação material.

Não é a falta de paciência o maior engate para a prática de violência contra o idoso, qualquer ação ou omissão que cause morte, dano ou sofrimento, seja físico, psicológico ou patrimonial, praticada contra o idoso é considerada como violência. Embora a perda de paciência do cuidador/familiar possa gerar estresse pontual, o maior gatilho para a violência contra a pessoa idosa está relacionado à sobrecarga do cuidador associada à dependência e vulnerabilidade do idoso.

É preciso nos reportar às três leis do amor, fundamentais para o cuidado com os idosos: pertencimento, hierarquia e equilíbrio. Pertencimento significa que o idoso faz parte do sistema familiar e não pode ser excluído. Hierarquia impõe o respeito a quem veio antes, por isso não podemos considerar que nossos pais viraram nossos filhos, seja pela demência, Alzheimer ou idade. Equilíbrio: entre pais e filhos não há equilíbrio recíproco, eles nos dão a VIDA e tomando-a passamos para a próxima geração, sem nada exigir.

Embora seja lícito, a nós não é legítimo culpar nossos pais idosos pelo nosso sucesso ou insucesso. Muitos não tiveram escolha, fizeram o melhor. Muitos filhos abandonados pelos pais têm ainda a oportunidade de fazerem diferente na velhice deles, mas cada um dá o que tem, ou seja, o que dá conta, e está tudo certo.

Pense nisso: o maior problema do idoso é fazer-se ouvir e aceitar-se. Estamos a caminho, depende somente de nós, o cuidado melhor, a conscientização da família de que nosso idoso (a) não é tão ruim, não é peso. O importante é não ferir (violentar) e não se deixar ferir (ser violentado). Não seja dependente emocional de seus filhos, de seus netos, de seus parentes ou de seus amigos, somente de DEUS!

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