Caros amigos, Maria está de luto. Se vocês têm um minutinho, vou lhes contar a história. Mesmo que deva ser comum a separação dos nossos entes queridos, pois a única certeza que temos é a morte, não há receita, remédio ou fórmula para essa vivência.
Acontece que Maria, nos últimos seis anos, tinha como principal afeto a Marrom, uma cadela vira-lata, que nasceu da Melissa, outro serzinho que lhe deu muitas alegrias. Todos acreditavam que Marrom era macho, mas era fêmea, seu nome era em homenagem à cantora Alcione e à sua cor, marronzinha.
A danada era muito esperta, gostava de caminhar, de enfrentar outros cães; mas também de muito carinho, dava sua cabeça para Maria massagear com os pés. Todos os dias, esperava pela Dona e fazia a mesma festa. Marrom sentiu muito quando Maria foi para a Turquia. Após vinte dias fora de casa, quando se reencontraram, a cadela conversou demoradamente, como se quisesse uma justificativa para a ausência.
Os anos se passaram e Marrom começou a apresentar um comportamento estranho, como irritabilidade, agitação, comer coisas sem sentido, mesmo sem estar castrada não entrava no cio, dificuldade para respirar. Foi necessária a intervenção de especialistas como endócrino, cardiologista e oftalmologista.
Com nove anos, foi castrada; depois teve que tirar uma mama; com exames detectou-se um tumor. Enquanto havia esperança, foram vários tratamentos, inclusive com oncologista. No final de 2022, Marrom teve o primeiro AVC, quando, graças a uma grande amiga, Maria a levou até o Hospital Veterinário de Franca e lá descobriu que poderiam vir outros. Como sequela, a cabecinha tombava para o lado e lentidão para andar.
Este ano, Marrom teve outro AVC, mais forte. Maria correu com ela para a oftalmologista, mas a visão foi diagnosticada boa, apesar da idade avançada. Acontece que Marrom piorou, voltando a andar em círculos, aumentando cada vez mais a sua desorientação, diarreia, não saber o lugar de urinar e defecar, precária. No dia anterior, Marrom não deitou, não comeu, tomou água, andou pela casa inteira como se estivesse se despedindo e ficou por três horas na sala de oração, próxima aos livros sagrados.
Então, a humilde vira-lata, com dezesseis anos, não suportando mais, deu sinais de que não queria continuar a sofrer. Só restava a Maria agradecer por tamanha dedicação. Foi assim que no dia 9 de abril Maria despediu-se de Marrom, aquela que nos últimos seis anos, foi quem lhe trouxe afeto, confiança e validação.
É difícil fazer a escolha de quando devemos nos separar daqueles a quem amamos, nunca estamos preparados para gerir a dor. Ocorre que entre Maria e Marrom, o cuidado era é o centro da relação. Verdade é que Maria sempre gostou de cuidar do outro. Por sua vez, Marrom tinha uma escuta gentil, nada exigia, apenas retribuía com sua presença e emoção sempre que Maria chegava e a acariciava.
Parafraseando Mariana Clark (@mari_cclark): “além de a gente perder pessoas que a gente ama muito, a gente vai viver quinze processos de dor ao longo de nossa existência, chamados de lutos não reconhecidos. São eles: divórcio, perda de animal de estimação, o diagnóstico de uma doença que ameaça a continuidade da vida, síndrome do ninho vazio, amputação, aborto, aposentadoria, mudança de trabalho e outros”.
A saudade é tanta que Maria ainda está de luto. Contudo, no trabalho encontra o melhor recurso. A sua ferramenta de enfrentamento é sem dúvida o trabalho. A advocacia para Maria é assim, um compromisso constante com o conhecimento; através de cada caso surge um espaço de expressão único. Durante a vivência do luto, cada ser pode reagir de forma diferente, como dá conta. Devemos dialogar sobre o assunto. Maria foi fiel diante do sinal de Marrom; beijou-lhe a testa e disse ao seu ouvido: Até breve!
Heloisa Helena Valladares Ribeiro
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