Há alguns dias, enquanto percorria a galeria de fotos do celular, encontrei um padrão que nunca havia percebido.
Todo segundo domingo de agosto havia um retrato meu ao lado do meu pai.
Um ano depois do outro.
Sem combinação. Sem pose. Apenas acontecia.
Como tantas coisas importantes da vida, só notei quando deixou de acontecer.
Neste ano, pela primeira vez, não tem fotografia.
Fiquei olhando para aquele espaço vazio por alguns minutos.
E entendi que, talvez, este texto seja apenas isso.
A fotografia que este ano já não posso tirar.
Há meses tento escrever sobre meu pai.
Há meses apago tudo.
Talvez porque escrever sobre ele sempre tenha parecido estranho. Nunca fomos de transformar afeto em palavras.
Nos entendíamos de outro jeito.
Na presença.
Nas conversas sem pressa.
Nos olhares que diziam mais do que qualquer discurso.
Hoje percebo que este texto rompe um pacto silencioso entre nós. Coloca em palavras uma relação que sempre preferiu os gestos.
Mas senti que era hora.
Não para dizer que tive um pai perfeito.
Porque não tive.
Meu pai era um homem como qualquer outro: cheio de qualidades, defeitos, teimosias, acertos e contradições.
Curiosamente, foi quando deixei de enxergá-lo como herói que passei a admirá-lo de verdade.
A maturidade nos ensina que amar alguém apesar das suas imperfeições é um amor muito mais profundo do que aquele que nasce da idealização.
Desde que ele partiu, tenho tentado entender o tamanho da ausência que ficou.
Demorei a encontrar uma imagem que explicasse isso.
Pensei numa trapezista.
Ela passa anos aprendendo a voar porque acredita que existe uma rede capaz de ampará-la.
Durante muito tempo achei que meu pai era essa rede.
Hoje entendo que eu estava olhando para o lugar errado.
Ele nunca me preparou para depender dela.
Preparou-me para o voo.
Ensinou sem fazer discursos.
No exemplo.
Na forma de tratar as pessoas.
Na gentileza oferecida mesmo a quem nunca mais veríamos.
Na discrição de quem nunca precisou anunciar o próprio afeto para fazê-lo existir.
Durante muito tempo pensei que esses gestos eram apenas meus.
Hoje sei que muitos deles continuam sendo dele, vivendo em mim.
Talvez essa seja a herança mais bonita que um pai possa deixar.
Não fazer da filha uma extensão de si.
Mas permanecer nela de maneira tão natural que ela só descubra isso muitos anos depois.
Neste Dia dos Pais não haverá uma nova fotografia na galeria do meu celular.
Mas já não sinto que ela faça falta.
Porque algumas imagens terminam.
Os ensinamentos, não.
E descobri que a maior saudade não é a de quem perdeu a rede.
É a gratidão de quem percebe, tarde demais, que teve ao lado um mestre que passou a vida inteira ensinando a voar.
Joanna Prata
Jornalista, repórter do Grupo JM de Comunicação