A vida é feita de ciclos, desde o nosso nascimento até a fase adulta, vamos vivendo vários ciclos, mesmo sem percebê-los nitidamente, ou no exato momento em que neles nos encontramos.
Quando crianças, saímos das fraldas para a alfabetização, via de regra. Deixamos o núcleo familiar e começamos a vivenciar experiências com outras crianças, no local que moramos e na escola que estudamos. Creio que isto serve a todas as gerações, desde antes da minha, até hoje. O início do convívio social nos propicia uma série de situações inusitadas. Antes, a turma da rua; hoje, do prédio ou do condomínio e, claro, a da escola. Primeiras festas coletivas, jogos, brincadeiras e hoje, com certeza, o celular como fiel escudeiro.
Estes dias acompanhei pela imprensa brigas de jovens na porta das escolas, costume que achei já estava ultrapassado; enganei-me. Achei que era um ciclo banido, mas os massacres e as guerras talvez sejam um ciclo sem fim.
A sequência vem com a continuação dos estudos no Fundamental e no Médio, quando não divididos ou paralisados pelo trabalho e a necessidade de ajudar em casa. Quem consegue avançar chega ao vestibular e, por conseguinte, ao Ensino Superior, hoje com muito mais oportunidades, fato difícil na minha geração, onde eram raras as faculdades e universidades. Aqui um alerta, com relação à qualidade do ensino, posto que temos no ciclo seguinte um mercado de trabalho mais exigente. Acredito que uma escola, ainda que incompleta, seja melhor que um presídio de segurança máxima, mas sei que precisamos ficar atentos com o mercantilismo educacional, tão funesto quanto o da fé.
Estes ciclos iniciais, símbolos da juventude, poderiam ser melhor aproveitados por todos, mas a ânsia de crescer, dirigir, conviver, casar, vai se apoderando dos jovens, todos querem atingir seus 18 anos, logo os 21 anos, chegam rápido.
A fase adulta vem com responsabilidades maiores, deixando o passar de ano, e o trabalho esporádico, na saudade e na memória. Neste momento, chega o ciclo do trabalho, do casamento, dos filhos e no jargão popular... dos boletos.
Este ciclo que vai dos 25 aos 60 anos, em média, representa a autoafirmação, a maturidade e a aposentadoria para a maioria de nós, e neles os vários pequenos ciclos de conviver com a família, amigos e trabalho, o que nos faz envelhecer sem perceber. O tempo não para. O tempo nos apresenta uma realidade única, afinal envelhecer é a melhor, ou de fato, é a única opção.
Nesta etapa, os filhos já foram para o mundo, pais e avós mudam de prisma, eventualmente amigos e colegas de vida e trabalho e vem chegando a nostalgia. O apego à célebre frase iniciada com... no meu tempo ou na minha época..., símbolo máximo das saudades daquela etapa boa da infância e da juventude.
Claro que no texto tem a romantização de algumas etapas, evitamos tratar de ciclos que trazem dor como doenças e lutos e vem também o desejo de que esta fosse uma realidade para todos, e não para uma minoria. O adendo é feito para que todos possamos entender o ideal de ciclos virtuosos, mesmo sabendo que, ao longo de uma existência, convivemos com ciclos mais duros, amargos e que enfrentamos, pois é uma realidade da própria vida.
São ciclos.
Esta reflexão vem no momento em que o mundo, aparentemente de cabeça para baixo, solapado por guerras e com uma nova revolução em curso, a revolução da IA, faz-nos pensar... Que ciclo é este?
Sêneca já dizia que sofremos mais na imaginação do que na realidade. E você, em que ciclo está?
Karim Abud Mauad
karim.mauad@gmail.com