ARTICULISTAS

De Sócrates a Bolsonaro, a Justiça sob pressão

Lúcio Delfino
Publicado em 05/04/2025 às 12:54
Compartilhar

Em 399 a.C., Atenas assistiu, perplexa, ao julgamento de um homem cuja voz perturbava as certezas de uma pólis em reconstrução. Sócrates, com seu método dialético de corrosiva ironia, fora acusado de impiedade e de corromper a juventude. Mas o que se processava, de fato, não era um cidadão entre outros, e sim um símbolo — o incômodo personificado, em uma cidade dilacerada pela guerra e pelo medo do dissenso. Naquela arena, não era apenas a figura do filósofo que se julgava, mas a própria capacidade da democracia ateniense de conviver com o pensamento que a interrogava.

Milênios depois, em um cenário distinto, mas igualmente convulso, outro personagem polarizador se vê diante de um tribunal. As imputações, agora, envolvem suposta conspiração contra a ordem constitucional brasileira, tendo como base investigações sobre minuta de golpe e tentativas de subversão do resultado eleitoral. No entanto, o paralelismo emerge com nitidez inquietante: uma nação já tensionada, instituições postas à prova e juízes convocados a responder às paixões de seu tempo. Como um pensador observou certa vez, a história pode não se repetir, mas frequentemente rima.

Sócrates desafiava convenções com palavras, jamais com armas. Recusou o exílio, sugerindo com ironia que merecia ser mantido com honras no Pritaneu, e aceitou a morte com serena altivez. Sua condenação, lavrada por um júri popular de quinhentos e um cidadãos — nos moldes da democracia ateniense —, não foi mero veredito jurídico, foi catarse política, reação a um incômodo existencial. A cidade, em crise, necessitava de um bode expiatório.

O julgamento contemporâneo também se desenrola sob um pano de fundo simbólico. A controvérsia que cerca o ex-presidente Jair Bolsonaro transcende os autos. Seus seguidores o veem como mártir de um Brasil que rejeita as elites tradicionais; seus detratores o retratam como ameaça concreta à estabilidade republicana — não raro, guiados por interesses ideológicos ou estratégicos que se ocultam sob a retórica da defesa da democracia. A cena repete o ritual: discursos inflamados, mobilizações passionais, julgadores – entre os quais há notórios adversários do réu – instados a decidir não apenas sobre fatos, mas sobre sentidos.

É precisamente nesse ponto que o paralelo com Atenas se adensa. Ambos os julgamentos revelam mais do que pretendem resolver. Escancaram as contradições internas de sistemas que, sob pressão, vacilam entre a pretensão de estabilidade institucional e o apelo das multidões. A diferença reside, possivelmente, na substância: Sócrates representava o impalpável — o pensamento, a dúvida, o verbo corrosivo. O caso atual, por outro lado, envolve condutas, articulações e documentos cuja materialidade testa os limites já rarefeitos entre justiça e política.

Mas seria simplista reduzir o presente a um espelho do passado. Aliás, cumpre esclarecer — a fim de obstar leituras apressadas ou críticas mal-intencionadas: este ensaio não se propõe, em hipótese alguma, a estabelecer paralelos diretos entre Sócrates e Jair Bolsonaro, cujas trajetórias e naturezas são profundamente díspares, mas apenas examinar os ecos simbólicos que ressoam entre os respectivos contextos históricos e as consequências políticas que seus julgamentos ensejam. O que importa, sobretudo, é o que cada sociedade escolhe fazer com seus fantasmas. A Atenas clássica legou à posteridade a imagem de um sistema que, diante do dissenso, preferiu a eliminação emblemática ao debate. E nós — o que legaremos? Um gesto de maturidade civilizacional ou mais um capítulo na crônica da judicialização do conflito político?

Talvez a resposta não se situe no julgamento técnico, mas na cicatriz que deixará impressa na memória coletiva. A condenação de Sócrates eternizou-se como ferida inaugural da filosofia ocidental; o processo de Bolsonaro — seja qual for seu desfecho — será, inevitavelmente, marco interpretativo de uma época.

O veredito, portanto, não será apenas do Judiciário, mas da História. E esta costuma ser implacável com sociedades que, diante da dúvida, preferem o silêncio ao pensamento, e o escândalo à razão.

Lúcio Delfino

Advogado; doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP; diretor da Revista Brasileira de Direito Processual – RBDPro; ex-presidente da Associação Brasileira de Direito Processual – ABDPro

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por