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O exemplo que forja destinos

Lúcio Delfino
Publicado em 02/06/2025 às 17:43
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Para Claudiovir Delfino — cuja vida, sem jamais alardear, faz-se farol, régua e roteiro

Há vidas que, por seu simples curso, orientam. Não porque se proponham a isso, mas, precisamente, por não se proporem. A grandeza de um verdadeiro modelo não está nos discursos persuasivos, mas na silenciosa autoridade — aquela que se impõe sem força, persuade sem palavras e ensina sem nunca pretender ensinar. O futuro de um homem costuma ser o prolongamento de um exemplo que viu e decidiu seguir. Quando esse exemplo é o correto, transforma destinos.

Nasci filho daquele que viria a ser meu maior mestre. Foi uma dádiva, cuja real dimensão só compreendi mais tarde. Claudiovir Delfino — meu pai — não é apenas o melhor advogado que conheci: é, no mais profundo sentido, o ser humano mais completo que pude observar de perto. Capaz de resolver problemas complexos com uma clareza desconcertante, sua mente une pragmatismo e elegância com rara harmonia. Parece pensar por linhas invisíveis, conduzindo sempre ao essencial, sem ornamentos ou vaidades. Seu ego, plenamente domado, revela a serenidade de quem já superou a necessidade de provar algo a alguém.

Profícuo, estudioso, pontual, incansável, sincero e cortês no convívio — meu pai não apenas exerce a advocacia; ele a honra. É diligente como poucos e, hoje, após 55 anos de profissão, segue trabalhando com a mesma tenacidade que o movia décadas atrás. Sua personalidade cativa. Sua postura em audiência é uma arte: não apenas domínio técnico, mas uma forma elevada de presença, escuta e entrega.

Louis Lavelle ensina que “o eu não é um ser dado, mas um ser que não para de se dar a si mesmo”. O eu, prossegue, se realiza por escolha: “escolher um modelo já é começar a realizar-se” (LAVELLE, Louis. “A Consciência de Si”. Tradução de Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: É Realizações, 2014). Meu pai escolheu os seus — alguns visíveis, outros invisíveis —, porém também se forjou à imagem da própria experiência: da luta, do sofrimento, da renúncia, da verdade que soube sustentar nos momentos em que seria mais fácil ceder. Assim, tornou-se referência para tantos, e muitos colhem frutos por terem seguido seus passos.

Nem todos aqueles a quem a oportunidade bateu à porta a vivenciaram da mesma forma. Alguns optaram por caminhos distintos — seja por decisão pessoal, por acasos ou pela perseguição de sonhos. A vida, com seu tempo e seus mistérios, mostrará a cada um se encontrou abrigo em seu percurso. Entretanto, permanece para todos o que realmente importa: a gratidão pelo privilégio de aprender com um mestre autêntico, cuja presença torna a caminhada mais segura, mais reta e, sobretudo, mais altiva.

Figuras assim iluminam sem ostentar, corrigem sem humilhar, exigem sem prepotência. São horizontes, porque apontam a direção do que podemos ser. São régua, porque endireitam; bússola, porque sinalizam; âncora, porque sustentam.

Ao vê-lo hoje, com vigor juvenil, semeando virtudes, percebo o quanto devo à graça de tê-lo como pai. Tê-lo como Mestre foi uma consequência natural. E é com essa compreensão que encerro esta homenagem, recordando a lição de Sêneca, nas “Cartas a Lucílio”:

“Que a nossa alma [...] tenha um modelo a quem venere e cuja autoridade torne mais nobre mesmo o seu mais íntimo recesso. [...] Feliz o homem capaz de ter por alguém tanto respeito que a simples lembrança do modelo basta para lhe dar ordem e harmonia espiritual! Quem for capaz de ter por alguém um tal respeito, em breve inspirará, por seu turno, respeito idêntico. [...] Escolha alguém cuja vida, cujas palavras, cujo rosto, enfim, espelho da própria alma, sejam do teu agrado. Contempla-o sempre, ou como teu vigilante, ou como teu modelo. Temos necessidade, repito, de alguém por cujo caráter procuremos afinar o nosso: riscos tortos só se corrigem com a régua!”

Lúcio Delfino

Advogado; doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); diretor da “Revista Brasileira de Direito Processual” (RBDPro); ex-presidente da Associação Brasileira de Direito Processual (ABDPro)

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