Criaram a tal “caixa-preta” das viagens da Administração Municipal como quem arma o picadeiro antes de o público chegar. Acenderam os refletores, testaram os microfones e anunciaram o grande número da noite: o escândalo dos milhões.
O mestre de cerimônias, sempre eloquente, avisa que o espetáculo não pode parar. Entram em cena os contorcionistas da narrativa, dobrando números até que caibam na manchete. Os malabaristas equilibram cifras no ar, enquanto engolidores de facas ensaiam discursos inflamados.
Mas, passado o barulho da plateia virtual, restam os fatos, pois entre 2023 e 2025 os gastos efetivos com passagens e locomoção somam cerca de R$3,5 milhões. São dados públicos. Transparentes. Disponíveis no Portal da Transparência. Nada de cofre secreto, nada de mapa do tesouro escondido. Os alardeados “R$10 milhões” misturam contratos estruturais e permanentes. Dentre eles entram na conta serviços como Ubervan, Ubervidas, contratos com a Localiza em 2024, transporte rural e outras soluções de mobilidade; serviços contínuos, essenciais à máquina pública, foram carimbados como “viagens”.
É uma operação semântica criativa, eficaz para gerar indignação, menos para explicar contabilidade, onde contratos anuais viram passagens aéreas imaginárias, frota operacional transforma-se em turismo administrativo, mobilidade pública vira excursão, funciona para o título da live, mas não resiste a uma planilha aberta.
A denúncia já foi protocolada no Ministério Público e no Tribunal de Contas. Órgãos com prerrogativa constitucional, equipe técnica e acesso integral aos sistemas municipais. Instituições criadas justamente para investigar, auditar e, se necessário, punir.
Daí conclui-se que: CEI não substitui Ministério Público; CEI não substitui Tribunal de Contas; CEI não condena, não sentencia, não produz decisão judicial.
Pode investigar? Pode, mas, quando já há apuração formal em curso, é preciso critério, não impulso, pois em ano pré-eleitoral, toda comissão corre o risco de virar palco, toda pauta ganha figurino, toda sessão pode virar trailer de campanha.
A pergunta que ecoa fora do picadeiro é simples: Trata-se de zelo republicano ou de negociação política, como moeda de troca em bastidores?
Transformar controle institucional em espetáculo é tentador, dá audiência, rende cortes para redes sociais, alimenta narrativas, mas fiscalização não é número de ilusionismo contábil, não é teatro de indignação seletiva. Fiscalizar é comparar dados, compreender contratos, respeitar competências, é agir com responsabilidade diante da cidade, não diante das câmeras.
Uberaba precisa de vigilância séria, não de holofotes ansiosos; precisa de rigor técnico, não de roteiro dramático, porque, no fim, quando o circo desmonta e as luzes se apagam, quem paga a conta não é o artista... É o cidadão.
Marco Antônio de Figueiredo
Jornalista, articulista e advogado