O verão em Uberaba não morre, ele se dissolve. Há uma poesia cruel no modo como o céu de março, pesado como o couro de um zebu sob o sol, decide subitamente desabar sobre as ladeiras da cidade.
As “águas de março” aqui não fecham o verão com a delicadeza de uma canção de Tom Jobim, elas encerram a estação com o estrondo de uma orquestra desgovernada, transformando o asfalto quente em um espelho turvo, onde se reflete o desespero do pedestre.
É um espetáculo de melancolia líquida, onde o cheiro de terra molhada é rapidamente substituído pelo aroma metálico das galerias pluviais.
Neste cenário de beleza catastrófica, o uberabense deixa de ser um habitante do Cerrado para se tornar um anfíbio por necessidade. A luz âmbar do entardecer é engolida por um cinza-chumbo que tudo apaga, restando apenas o brilho das lanternas traseiras, presas em um engarrafamento que mais parece uma procissão subaquática. É uma despedida úmida, onde os sonhos de um fim de tarde seco morrem na primeira enxurrada que quase galga o meio-fio.
Ninguém mais suporta essa umidade que se entranha nos ossos e nas paredes, esse mofo que insiste em colonizar os cantos da alma e da sala. O tédio hídrico atinge o ápice e a paciência.
Não há mais romantismo no barulho das calhas transbordando ou no ritual de desviar de poças no asfalto da Leopoldino de Oliveira. O povo clama pela poeira brava, pelo estio que traz o céu limpo e a certeza de que a roupa no varal não será uma oferenda ao “deus” do temporal.
As conversas nos cafés e nas esquinas convergem para o mesmo suspiro: “quando é que esse céu vai dar trégua?”. O uberabense está exausto de carregar o peso de um oceano suspenso sobre a cabeça e pensa: o suor do calor já era preferível a essa sensação de viver dentro de um aquário turvo. Queremos o sol que racha, não a chuva que ilha. Queremos a volta da terra firme, do horizonte nítido e da dignidade de caminhar sem que cada passo seja uma aposta contra a gravidade e o lodo.
O “fechamento” de Tom Jobim, em Uberaba, virou um “confinamento” e onde deveria haver o repouso do guerreiro ao fim da estação há apenas a vigília tensa contra a goteira e o granizo.
A promessa de vida no coração deu lugar à promessa de um outono seco, onde o único líquido que nos interessa seja aquele que refresca a garganta após um dia de sol legítimo.
O verão já se despediu em espírito; agora, só falta ele parar de chorar sobre nós. Já deu de águas de março, queremos, enfim, o direito de secar.
Marco Antônio de Figueiredo
Jornalista, articulista e advogado