ARTICULISTAS

No Despertar da Quarta-Feira de Cinzas

Marco Antônio de Figueiredo
Publicado em 09/02/2026 às 17:48
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A Quarta-Feira de Cinzas chega com a necessidade de um oficial de justiça, cobrando o juízo que foi depositado no primeiro bueiro da sexta-feira anterior.

É o dia oficial em que o Brasil retira a máscara para encarar a olheira da realidade, enquanto as engrenagens do poder, que nunca pararam para um confete, voltam a ranger aos ouvidos de quem tenta expulsar o álcool do sistema.

O enredo é sempre o mesmo: a cidadania pede passagem no meio de um mar de latas vazias. É fascinante observar como o país se torna um imenso Sambódromo da amnésia seletiva. Durante cinco dias, o cidadão, aquele que reclama do preço do feijão no grupo da família, aceita pagar o triplo por uma cerveja morna e uma fantasia de isopor.

O despertar crítico é jogado no esgoto, pois, aparentemente, a “liberdade” se resume ao direito de urinar em postes públicos enquanto se segue um caminhão de som.

O brilho dos desfiles, financiado por verbas que fazem falta em um posto de saúde, cumpre seu papel de cortina de fumaça com uma eficiência que nenhum gestor público jamais demonstrou. Na passarela da amargura, o “povo” descobre que o seu destino não é decidido pelo júri que analisa a evolução das alas, mas por engravatados que, durante o feriado, redigiram decretos e articularam manobras, enquanto a massa se preocupava com a harmonia da bateria.

A vigilância cidadã, que deveria ser um exercício diário e inegociável, é trocada por uma vigilância febril das redes sociais, onde a indignação é apenas um acessório de carnaval, que fica na mesma caixa das perucas coloridas.

A sátira reside no fato de que o brasileiro se sente um herói por “sobreviver” ao carnaval, quando a verdadeira prova de resistência começa exatamente quando sai o resultado do desfile das Escolas de Samba.

Enquanto a Quarta-Feira de Cinzas for apenas o dia de contar o prejuízo financeiro e não o dia de auditar os prejuízos sociais acumulados, continuaremos sendo figurantes de luxo em um teatro de sombras.

O despertar crítico é o que sustenta o futuro, mas, pelo visto, o Brasil prefere continuar tirando sonecas profundas entre um feriado e outro, garantindo que a alienação continue sendo a grande campeã do carnaval.

 Articulista, jornalista e advogado

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