Num certo país tropical, onde o bom senso tira férias coletivas e o fígado pede asilo político, grande parte dos brasileiros decide parar tudo por cinco dias, para encenar uma versão tupiniquim do Oruro boliviano.
Aqui, a sofisticação é medida em toneladas de purpurina e a calma não sobrevive à primeira batida do surdo. É o carnaval, o hospício a céu aberto onde a cuíca chora e o povo ri da própria desgraça, enquanto “musas” desafiam o decoro, com fantasias que custam o PIB de uma pequena nação europeia.
Este ano, o destino resolveu que uma gigante do Grupo Especial de São Paulo deveria homenagear a nossa “Princesinha das Gerais”. Sim... Uberaba, a terra onde o zebu é rei e Chico Xavier é o guia.
Prometeram um desfile com o peso das Sete Colinas e a inteligência das Universidades, transformando o Anhembi em um imenso pasto sagrado e tecnológico, chancelado pelo Geoparque Uberaba da Unesco.
A expectativa é de um transe coletivo: o bumbo retumbando como o mugido de um reprodutor zebu premiado e o pandeiro girando mais que ventilador.
Mas, como no Brasil a tragédia adora um desfile de gala, paira no ar uma pergunta mais incômoda que pedra no sapato: e se a escola, num deslize de mestre-sala, ou num carro alegórico que decide empacar como burro brabo, sair do Grupo Especial e for rebaixada?
Se a agremiação despencar para o Grupo de Acesso, o diagnóstico será implacável. Esqueça a crise estética ou a falta de harmonia; a culpa será da “Princesinha” Uberaba, com toda sua mística, correria o risco de ser coroada como a nova “Capital Mundial do Pé Frio”.
Diriam os críticos de boteco que nem o prestígio internacional do zebu seria capaz de afastar o “encosto”. Imaginem um escândalo digno de manchete sensacionalista: “Zebu puxa escola para o brejo”. O deboche seria eterno.
Imagine os memes associando o rebaixamento ao peso dos dinossauros de Peirópolis? Se a escola cair, o brasileiro, que não perdoa nem a própria mãe na Quarta-Feira de Cinzas, vai jurar que o samba-enredo virou ração de gado e que as sete colinas, na verdade, eram sete degraus para baixo.
No fim, o carnaval é isso: uma aposta alta entre a glória eterna e a humilhação pública, Uberaba entra na avenida com o peito estufado, mas se o resultado for a segunda divisão, não haverá incenso ou berrante que segure o apelido de “pé gelado”.
Mas... afinal, no país do samba, a única coisa que não aceita erro de destino é a apuração. Se cair, meu caro, nem Freud explica, nem o boi e os dinossauros aguentarão o tranco da piada.
Marco Antônio de Figueiredo
Articulista, jornalista e escritor