Aos 206 anos, Uberaba já acumulou experiência suficiente para reconhecer um discurso político antes que ele termine a primeira frase. Cidade estratégica desde a origem, consolidou relevância no Triângulo Mineiro convivendo com ciclos de entusiasmo eleitoral e posteriores banhos de realidade administrativa.
Uberaba gosta de se enxergar como potência e, em muitos aspectos, é onde o agronegócio a projetou nacionalmente, a genética bovina virou referência, educação e saúde lhe deram força regional. Mas potência repetida demais em palanque corre o risco de virar bordão. E bordão não resolve fila de espera, não tapa buraco, não melhora a mobilidade.
A cada aniversário, renova-se a promessa de decolagem. Planejamento técnico, gestão moderna, nova fase. Curiosamente, a cada troca de comando, descobre-se que o passado era insuficiente até que a próxima eleição reinicie o ciclo com novos adjetivos e as mesmas maquetes.
Não se trata de negar avanços. Uberaba avançou e possui equipamentos públicos e políticas estruturadas importantes. O problema não é a obra, mas a cultura de tratá-la como troféu pessoal. Gestão pública deveria ser construção contínua, e não vitrine individual.
Enquanto isso, a cidade real é pragmática. O trabalhador quer transporte eficiente, a mãe quer vaga garantida em creche e o empreendedor quer menos burocracia e estabilidade tributária.
Uberaba convive ainda com desigualdade territorial silenciosa. Há bairros constantemente revitalizados e outros aguardando o básico. Por vezes, o mapa eleitoral parece pesar mais que o mapa das necessidades sociais.
No campo econômico, fala-se em diversificação produtiva. A intenção é correta. Depender de um único setor é arriscado, mas diversificar exige planejamento consistente, incentivos claros e visão de longo prazo, elementos que nem sempre resistem à ansiedade por resultados imediatos.
A política local mantém seu teatro previsível. Situação defende legado. Oposição denuncia abandono. Ambos reivindicam o monopólio da verdade e no meio do embate, o eleitor amadureceu. Já não se impressiona apenas com inaugurações. Quer eficiência mensurável. Uberaba tem uma virtude maior: sua gente. Há identidade forte e sentimento de pertencimento. É essa força social que sustenta a cidade quando a política falha.
Aos 206 anos, Uberaba não precisa de salvadores nem de slogans reinventados. Precisa de planejamento que sobreviva a mandatos, responsabilidade fiscal e diálogo institucional.
Celebrar seu aniversário é aceitar que maturidade política exige autocrítica.
Desenvolvimento não é espetáculo, é processo.
Uberaba - Princesa das Gerais
No peito do Triângulo, um sonho bordado,
Águas claras, de um tupi cantado.
Uberaba, no horizonte, se faz primazia,
Princesinha da terra, poesia e agonia.
Entre o som do berrante e o doce da prosa,
Cidade das sete colinas, tão formosa.
Aqui o zebu, com sua garra e postura,
Fez do pasto riqueza, da raça, bravura.
Terra de gigantes, de um tempo distante,
Geoparque na pedra, o Titanossauro adiante.
Peirópolis guarda o mistério da terra,
E o Triângulo Mineiro, de orgulho se encerra.
Mas Uberaba é alma, é fé, é consolo,
Onde o bem-fazer teve o seu colo.
Chico Xavier, a luz e a palavra sagrada,
Deixou em cada esquina, uma carta enviada.
A prece, o amor, a paz que ele ensinava,
Ecoa nos corações a luz que ele levava.
Encantos mil em cada amanhecer,
No Mercado Municipal, sabor a florescer.
Do agronegócio pujante, ao abraço fraterno,
Uberaba é o lugar, um encanto eterno.
Princesa do Triângulo, de fé e tradição,
Em cada uberabense, um pedaço do sertão.
Marco Antônio de Figueiredo
Articulista, advogado e jornalista