Quase ninguém sabe, mas praticamente toda a tecnologia que possibilitou a criação dos smartphones em geral, e do iPhone em particular, foi diretamente desenvolvida ou financiada pelo Estado.
Quem melhor estudou essa questão foi a economista e professora de Economia da Inovação e Valor Público na University College London (UCL) e ex-professora da cátedra RM Phillips de Ciência e Tecnologia da Universidade de Sussex, Mariana Mazzucato em O Estado Empreendedor, que demonstra que Steve Jobs não inventou a tecnologia, ele a empacotou de forma genial.
O iPhone é o maior caso de socialização do risco e privatização do lucro da história moderna. Aqui estão as 12 tecnologias principais que permitem sua criação:
1. Internet
Criada pela ARPA, hoje DARPA, agência do Pentágono, em 1969, como ARPANET. Sem ela, nada de 4G, 5G, Wi-Fi, App Store.
2. GPS
Projeto NAVSTAR, do Departamento de Defesa dos EUA, iniciado nos anos 70. Custou 12 bilhões de dólares de dinheiro público, desenvolvido pela Marinha e Força Aérea norte-americanas. O iPhone só tem Google Maps e Uber por causa das forças armadas dos Estados Unidos.
3. Tela sensível ao toque (Touchscreen) e Multitoque
Os primeiros estudos são da Universidade de Delaware, financiados pela NSF e pela CIA nos anos 70. A tecnologia capacitiva multitouch, que o iPhone popularizou, veio de pesquisas da Universidade de Delaware e do CERN . A empresa FingerWorks, que a Apple comprou em 2005, era de dois professores bancados com recursos públicos.
4. Tela de LCD e Display
Financiada pelo programa de pesquisa da Marinha e do Exército dos EUA nas décadas de 60 e 70. A RCA, que desenvolveu, tinha contrato militar.
5. Microprocessador, Microchip e Semicondutor
A indústria de semicondutores americana inteira nasceu de compras públicas. Em 1962, 100% da produção da Fairchild, a mãe de todas as empresas de chip do Vale do Silício, era comprada pelo governo americano, pela NASA e Força Aérea. DARPA bancou o Vale do Silício inteiro nos anos 60.
6. Comunicação Celular / 4G / 5G
Toda a infraestrutura de telefonia celular, ondas de rádio, satélites, foi financiada por investimento militar norte-americano e europeu.
7. Siri/Assistente de Voz
A Siri não é da Apple. É um spin-off do projeto CALO, o maior projeto de inteligência artificial da história da DARPA. A DARPA deu 150 milhões de dólares para o SRI International criar uma assistente para comandantes militares. O resultado virou a Siri, que a Apple comprou em 2010 por 200 milhões.
8. Reconhecimento de Voz e Inteligência Artificial
Financiado por 40 anos pela DARPA e pela NSF (National Science Foundation), é uma agência federal independente que apoia a ciência e a engenharia em todos os 50 estados norte-americanos.
9. Bateria de Lítio
A pesquisa base que tornou possível bateria leve e recarregável foi bancada pelo Departamento de Energia dos EUA (DOE) nos anos 80 e 90, no laboratório de John Goodenough, que ganhou o Nobel.
10. Memória Flash / Disco Rígido (HD)
Desenvolvido inicialmente pela IBM com contratos militares, depois aperfeiçoado com recursos financeiros da Força Aérea.
11. Protocolo HTTP / WWW
Desenvolvido por Tim Berners-Lee no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), o laboratório público europeu de física financiado por 23 Estados.
12. Câmera miniaturizada
Tecnologia de sensor CMOS desenvolvida pelo Jet Propulsion Laboratory da NASA nos anos 90. Precisavam de câmeras pequenas e baratas para enviar ao espaço.
Em síntese, o Estado atua quando ninguém quer entrar, porque o risco é altíssimo e o retorno, caso ocorra, pode demorar 20, 30 anos. Empresa privada nenhuma ia gastar 20 anos e 12 bilhões para criar GPS sem saber se ia dar certo.
Depois que o Estado acerta e a tecnologia fica pronta e comercialmente viável, aí sim entra a Apple, que coloca num design de alumínio, patenteia a integração e cobra US$1.500.
Como diz Mazzucato: o Estado fez o iPhone ser inteligente, a Apple só o fez bonito. Ou seja, a mão do Estado é invisibilizada e a ideológica, despida de ciência, é dirigida a outros países, é disseminada, a fim de que não desenvolvam tecnologias e se tornem concorrentes. É a velha mensagem: “Façam o que eu digo e não o que eu faço”.
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Marcos Bilharinho
Advogado, escritor e membro da Academia de Letras do Triângulo