A história do século XX prova que não existe ditadura benigna. Seja de direita ou de esquerda, todo regime que suspende liberdades, elimina o contraditório e concentra poder absoluto termina da mesma forma: medo, miséria e morte em escala industrial. O que muda é apenas a desculpa ideológica.
1. O fascismo e o nazismo - A ditadura racial e imperial
*Itália fascista (1922-1943) de Benito Mussolini foi o modelo. Criou o Estado policial, o culto ao líder e a ideia de que a violência purifica. Matou cerca de 400 mil italianos entre repressão interna, guerras coloniais na Líbia e Etiópia - onde usou gás mostarda - e a Segunda Guerra Mundial. Até aliados foram eliminados, como na purga de opositores dentro do próprio Partido Fascista.
*Alemanha nazista (1933-1945) levou o modelo ao extremo. Em nome da pureza racial, institucionalizou o extermínio. O Holocausto vitimou 6 milhões de judeus e mais 5 milhões de ciganos, eslavos, homossexuais, deficientes, testemunhas de Jeová e opositores políticos - total de cerca de 11 milhões assassinados nos campos. Se somarmos as mortes provocadas pela guerra que Hitler iniciou, são mais de 50 milhões.
A característica comum: a traição aos próprios aliados. Na Noite das Facas Longas em 1934, Hitler mandou matar Ernst Röhm e a cúpula da SA, seus aliados mais leais desde os anos 20, por representarem ameaça ao seu poder.
2. As ditaduras ibéricas – A longa agonia
*Espanha de Francisco Franco (1939-1975): após uma Guerra Civil que matou 400 mil pessoas, Franco instalou um regime de vingança. Estima-se entre 100 mil e 200 mil execuções extrajudiciais e judiciais após a guerra, 400 mil pessoas passaram por campos de concentração e trabalho forçado. Até falangistas originais e monarquistas que o ajudaram foram afastados e presos quando questionaram o poder absoluto do Caudilho.
*Portugal de António Salazar (1933-1974): a ditadura mais longeva da Europa Ocidental. A PIDE, sua polícia política, não matou em massa, mas torturou, prendeu e matou cerca de 3 a 10 mil opositores, e manteve 13 anos de guerras coloniais na África que custaram mais de 100 mil vidas. Salazar era tão paranoico que até o seu delfim, o general Humberto Delgado, que havia sido leal ao regime, foi assassinado pela PIDE em 1965 quando se tornou oposição.
3. O totalitarismo de esquerda - Stálin e Pol Pot
*União Soviética de Josef Stálin (1924-1953): o exemplo clássico de que a revolução devora os filhos. Os arquivos soviéticos abertos após 1991 registram oficialmente 800 mil execuções políticas, 1,7 milhão de mortes nos Gulags e 390 mil mortes em deportações. As estimativas modernas de historiadores variam de 15 a 20 milhões de mortos por fome provocada como o Holodomor na Ucrânia, coletivização forçada e os Grandes Expurgos de 1936-1938.
Aliados? Stálin eliminou praticamente toda a velha guarda bolchevique: Trotsky assassinado no México, Zinoviev, Kamenev, Bukharin fuzilados após julgamentos farsa. Dos 1.966 delegados do 17º Congresso do Partido em 1934, 1.108 foram presos e mortos.
*Camboja de Pol Pot (1975-1979): o Khmer Vermelho tentou criar o homem novo agrário esvaziando as cidades em 72 horas. Em apenas 4 anos, matou *1,7 a 2,2 milhões de pessoas*, cerca de 20 a 25% da população. Professores, quem usava óculos, monges budistas, minorias muçulmanas. Até os próprios quadros do partido foram levados para o S-21 em Phnom Penh: de 20 mil prisioneiros, apenas 7 sobreviveram.
4. As ditaduras latino-americanas - O terror da Doutrina de Segurança Nacional
*Chile (1973-1990) - Pinochet: após o golpe contra Allende, 3.065 mortos e desaparecidos segundo a Comissão Rettig, 38 mil torturados e 200 mil exilados. A Caravana da Morte percorreu o país matando até aliados de centro-direita que haviam apoiado o golpe, mas pediam transição.
*Argentina (1976-1983) - Videla e Juntas Militares: a mais sanguinária do Cone Sul. Cerca de 30 mil desaparecidos, bebês roubados de presas grávidas e entregues a famílias militares, voos da morte. O centro clandestino ESMA matou até mesmo oficiais moderados que criticavam os excessos.
*Brasil (1964-1985): menos letal em números, mas não menos perverso em métodos. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortos e desaparecidos políticos, 20 mil casos de tortura, censura, cassações e exílio em massa. A Operação Condor, aliança entre Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, mostrava que o sistema perseguia opositores além das fronteiras, como no caso do pianista Tenório Jr., morto na Argentina em 1976.
A lição comum
Toda ditadura começa prometendo ordem, progresso, segurança ou igualdade, e termina criando inimigos internos para justificar seu fracasso. O nazismo precisou dos judeus, Stálin dos kulaks e trotskistas, Pol Pot dos intelectuais, Franco dos vermelhos, os militares latino-americanos dos subversivos.
E todas terminam perseguindo os próprios aliados, porque num sistema onde a lealdade é medida pela submissão absoluta, ninguém nunca é leal o suficiente.
O número final é assustador: só no século XX, regimes autoritários de direita e de esquerda mataram mais de 100 milhões de pessoas fora de guerras. Esquecer essa conta é abrir a porta para repeti-la.