ARTICULISTAS

O agro que não cabe na planilha

Mayla Amorim
Publicado em 10/12/2025 às 18:05
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Há momentos no agronegócio em que o número, por si só, já não basta. Em várias reuniões técnicas, acompanhei discussões profundas sobre matéria seca por hectare, melhoramento genético, conversão alimentar, taxa de lotação, sustentabilidade e desempenho. Informações fundamentais para a produção e para o negócio. Mas, muitas vezes, percebia algo faltando: havia conhecimento, mas não havia sentido compartilhado. E quando a informação não gera significado não gera valor percebido.

Isso não acontece por falta de competência técnica. Acontece por falta de conexão. O agro se apoia em dados o tempo todo, mas investidores, parceiros, colaboradores e clientes só compreendem aquilo que é traduzido para a vida real. Comunicar, nesse contexto, não é simplificar, é criar ponte entre o número e quem sente o impacto dele.

Porque não adianta produzir toneladas por hectare, implementar protocolos de manejo de excelência ou adotar as tecnologias mais avançadas se o mercado não entende o que isso significa. Quando o impacto não chega, a história não toca e a mensagem não ecoa, a marca fala sozinha. E marca que fala sozinha não cresce: ela se esforça, mas não escala.

No agronegócio, a inteligência acontece diariamente, na fazenda, no laboratório, no campo experimental, na nutrição, na genética, na análise de dados. Contudo, informação só gera valor quando se transforma em percepção. E percepção nasce de duas condições essenciais: clareza e humanização. Sem elas, continuamos comunicando como se o público fosse único, quando cada pessoa que recebe a mensagem ocupa um lugar diferente na cadeia.

O marketing que acredito não começa com o entregável. Começa com escuta. Porque antes do gráfico existe alguém lidando com pressão, antes do KPI existe insegurança e antes da planilha existe uma fazenda real conduzida por gente real, com sonhos reais.

Quando a técnica encontra humanidade, tudo muda. Matéria seca por hectare, por exemplo, fala de solo, pastagem, capacidade de suporte e gestão. Mas, quando bem traduzida, também fala de previsibilidade, maturidade de gestão, profissionalismo e tranquilidade operacional. Quando alguém entende o porquê, engaja. Quando engaja, respeita. Quando respeita, valoriza. E, quando valoriza, a marca cresce — não por propaganda, mas por coerência percebida.

Marketing, nesse contexto, não é enfeitar discurso. É dar voz ao que já existe. Não cria propósito, revela. Não inventa cultura, devolve consciência sobre como ela se manifesta. E esse impacto não aparece em dashboard, mas aparece na postura da equipe, na segurança emocional, no brilho no olho de quem entrega.

Afinal, negócios são feitos por pessoas. Liderança é influência emocional antes de ser técnica. Cultura é o que permanece quando o slide acaba. E não existe agronegócio sem gente, mesmo quando se fala pouco sobre ela.

Transformar conhecimento em marca não é publicidade. É tradução do que realmente importa. E ninguém traduz o que não escuta.

 Mayla Amorim

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