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A difícil interpretação da ética utilitarista

Nilson de Camargos Roso
n.roso@me.com
Publicado em 20/03/2026 às 17:44
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A ética utilitarista é uma doutrina moral consequencialista, que define a bondade de uma ação com base no seu resultado, procurando maximizar a felicidade e o bem-estar para o maior número de pessoas. Pode justificar atos moralmente questionáveis se o resultado final for benéfico.

A Fundação Dom Cabral há alguns anos, quando ministrou curso para a Unimed Uberaba, definiu como sendo uma ação que promove um mal menor, evitando o mal maior. Exemplificou o uso da ética utilitarista: “Duas locomotivas, transportando 200 passageiros cada uma, moviam-se em direções opostas. Através de controle eletrônico, a central de ferrovias, como já era rotina, desviava a locomotiva do lado direito para um desvio à direita e a outra, oriunda da esquerda, passaria reto. Após o desvio, a da direita retornaria à linha normal e seguiria seu trajeto. Porém, houve um dia em que o desvio da locomotiva para a direita não funcionou e, caso nada fosse feito, as locomotivas iriam colidir frontalmente, colocando em risco a vida de 400 pessoas. Mas havia uma alternativa: a locomotiva que vinha à esquerda poderia ser desviada para outro circuito, onde trabalhava um servidor, limpando os trilhos. Caso essa opção do desvio fosse feita, esse jovem seria atropelado e morto pela locomotiva. A opção dada pela ética utilitarista: nada fazer e 400 vidas correm risco pela colisão ou faz-se o desvio, salvam-se 400 vidas e o jovem morre”.

Todos os alunos presentes, após relutarem e alegarem que o jovem era casado e tinha filhos, optaram pela segunda opção, onde o jovem foi atropelado e morto. Essa foi uma discussão acadêmica onde cabia uma única solução, embora a contragosto dos alunos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o imperador japonês Hirohito disse “lutaremos até o último homem”, pois o Exército Japonês treinou soldados e doutrinou civis para lutarem até o último suspiro, evitando a rendição, que era vista como a desonra máxima.

Com os bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, houve um total estimado entre 129 mil e 200 mil mortes, incluindo as instantâneas e posteriores por radiação.

Jogadas as bombas, Hirohito rendeu-se, dizendo: “é chegado o momento de aceitarmos o inaceitável”.

Caso as bombas atômicas não fossem lançadas, dentro do previsto, haveria mortes de milhões de japoneses. Não me atrevo a concluir que as bombas atômicas foram a ética utilitarista encontrada.

Donald Trump, ao sequestrar o presidente da Venezuela, cometeu um ato desumano e antidemocrático. Os opositores à sua ação diziam: “quem deve decidir sobre o futuro da Venezuela é o seu povo”. Afirmativa correta, mas 3 dias antes das eleições o presidente Maduro fechou as fronteiras, impedindo os que moravam fora de votar, os opositores ao governo foram presos, as atas das urnas eleitorais não foram entregues, evidenciando a fraude eleitoral. Os defensores da ética utilitarista afirmam que Trump, neste caso, colocou-a em prática.

A ditadura teocrática do Iran é um regime facínora, cruel e obscurantista, que tortura, persegue e mata o seu próprio povo. A sua queda, a ocorrer, é uma boa notícia para os iranianos e para o mundo.

Por outro lado, o ataque militar dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel ao Iran é uma violação do Direito Internacional, com consequências catastróficas para a paz regional e mundial, que vai conduzir o mundo a uma escalada de violência, a uma tragédia humanitária e ao declínio econômico. Os frios defensores das ações contra o Iran certamente alegam fundamentos na ética utilitarista.

A Terceira Lei de Newton, ou Princípio da Ação e Reação, afirma que “para toda força de ação aplicada a um corpo, surge uma força de reação de mesma intensidade e direção, mas em sentido oposto”. Os EUA atuam contra os monstros dos regimes autoritários com muita força, mas sentem a intensidade da força de reação. Porém, “aquele que luta contra o monstro precisa tomar cuidado para não se tornar um monstro” (Nietzsche).

Para interpretar a ética utilitarista é necessário entender humanismo e saber pensar, pois “quem não quer pensar é um fanático; quem não pode pensar é um cretino; quem não ousa pensar é um covarde” (Francis Bacon).

 Nilson de Camargos Roso

Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM 

n.roso@me.com

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