Hipócrates estabeleceu o princípio da não maleficência “primum non nocere”, em que “o médico antes de promover o bem não deve causar o mal”. O antônimo de maleficência é beneficência, que é a capacidade que possui o ser humano de causar ou promover o bem. A forma mais avançada da beneficência é o ALTRUÍSMO, onde existe o amor desinteressado ao próximo, com abnegação, promovendo a filantropia, em ação antagônica ao egoísmo.
No meu segundo mandato de Diretor à frente da então FMTM (1993-1997), certo dia o MEC liberou vaga para nomeação de professor titular na FMTM, não especificando em qual disciplina. Ocorrera anos atrás um concurso para professor titular de determinada disciplina do Departamento de Cirurgia, no qual houve dois concorrentes. Após conversar com o vice-diretor da FMTM, professor Wandir Ferreira de Souza, verificamos que o concurso aberto no passado fora para um único titular em dedicação exclusiva, que ocupou o cargo após a nomeação e cerimônia de posse. Mas a questão levantada foi esta: o segundo colocado, também professor em dedicação exclusiva, fez e fazia um excelente trabalho como cirurgião e como professor criador e repassador do conhecimento. O desejo do diretor e do vice era nomear também este segundo colocado. Para isso, dialogamos com o professor titular vencedor do concurso e expusemos a ele a questão. Este professor lembrou que o concurso realizado fora para apenas uma vaga, ocupada por ele. Lembramos que ele tinha razão na argumentação, mas que, no passado, em outra disciplina, Ginecologia e Obstetrícia, houve simultaneamente dois professores titulares e que o Regimento da FMTM não impedia tal situação, conforme parecer do então procurador, embora nas Instituições Federais de Ensino Superior não tivéssemos notícia semelhante, em que o titular nomeado sempre se sentiu seguro com cargo garantido até sua aposentadoria, em verdadeira monocracia no comando de uma disciplina. Enfim, expusemos a ele que havia duas alternativas a ser tomadas:
1- nomeação feita pela Diretoria da FMTM, independente da aceitação do professor titular da disciplina e do Conselho do Departamento de Cirurgia, o que traduziria um aspecto político e consequente desgaste do nomeado, que entraria “goela abaixo”, mas que essa hipótese estava descartada;
2- o “xeque-mate” foi dado ao professor titular quando perguntamos “se ele se sentia melhor se o outro professor, não sendo nomeado, estivesse na pior”, mas pedimos que ele não respondesse essa questão, mas a levasse ao Conselho para discussão e decisão do caso e qualquer que fosse essa decisão a Direção da FMTM a respeitaria.
O professor titular levou o assunto ao Conselho, que, por UNANIMIDADE, concordou com a nomeação do segundo colocado. Enfim, foi o parto natural mais aguardado por todos os colegas, onde o primeiro professor, vencedor do concurso, abrindo mão da monocracia da condução da disciplina, saiu engrandecido por ser o condutor da proposta e a amizade entre ele e o outro foi robustecida, sendo obedecidos os princípios democráticos, assim como a transparência.
Os anos passaram e o segundo professor teve morte súbita, causada por infarto agudo do miocárdio. Este fato reforçou ainda mais a certeza com que o primeiro professor agira de modo correto, além de deixar uma pensão melhor para a viúva. O mérito coube ao vencedor do concurso, que agiu sem egoísmo e na forma mais avançada da beneficência: o ALTRUÍSMO.
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia; professor aposentado pela UFTM
n.roso@me.com