ARTICULISTAS

Normose

Nilson de Camargos Roso
n.roso@me.com
Publicado em 03/07/2026 às 18:14
Compartilhar

Aprendi no curso médico que o sufixo ose significa degeneração. Daí, artrose é a degeneração da articulação e miocardose é a degeneração do músculo cardíaco.
Porém, aprendi recentemente no curso de atualização para os conselheiros da Unicred que “normose é a doença de ser normal demais, é a degeneração do normal, é acreditar que o absurdo é normal”. Esse termo foi criado pelo psicanalista Pierre Weil. É a junção de “normal” + “neurose”. É quando você adota comportamentos doentios, irracionais ou destrutivos só porque são considerados “normais” pela sociedade. Você fica tão bem adaptado ao que todo mundo faz, perdendo o senso crítico.
Na neurose, você sofre porque não se adapta. Na normose, você adoece justamente por se adaptar, bem identificada pela frase “mas todo mundo faz”. Exemplos práticos de normose:
1- No trabalho: achar normal ter Burnout, dormir 4 horas por noite e não ver a família porque “é o padrão da empresa”. Todo mundo reclamando, mas ninguém muda.
2- Na sociedade: era “normal” na Grécia pré-crise, no início deste século, sonegar imposto, aposentar-se aos 50 anos com salário integral, ter cabide de emprego público. Todo mundo gastava mais do que tinha, virando regra. Deu no que deu e a Grécia foi à bancarrota.
3- No dia a dia: gastar dinheiro que não tem para manter status; viciar em celular porque “todo mundo vive assim”; aceitar relacionamento tóxico porque “casamento é isso mesmo”.
4- No Brasil: há de 30 mil a 40 mil mortes por ano causadas por acidentes de trânsito. Somente no estado de São Paulo há 3 mortes de motociclistas por dia, o que corresponde a 1.080 mortes por ano, além dos amputados, sequelados ou socialmente inativos. No entanto, sem reação, ouvimos os relatos dessas mortes diárias, achando “normal”.
Hoje, 25% da população brasileira, em suas comunidades, está sem autonomia, controladas pelos narcotraficantes. Grande parte das autoridades constituídas, nos Três Poderes, não se manifesta, mas, quando o faz, diz que “não podemos perder a soberania nacional permitindo que Comando Vermelho e PCC sejam considerados terroristas”, esquecendo-se que os citados 25% da população perderam sua soberania. Isto também é normose, onde o “normal” é tão doente que ficar doente virou a regra para ser aceito. 
5- Em Uberaba: há também “normose” na área da saúde. “O que é mais importante: a vida humana ou a obediência ao protocolo?” foi um texto publicado por mim, onde denunciei paciente que, em estado grave, próximo ao Pronto Socorro do Hospital de Clínicas da UFTM, não foi atendido por estar aguardando ser transportado para a distante UPA. No referido texto, conclamei para se manifestarem: Ministérios Públicos Estadual e Federal, as Justiças Estadual e Federal, Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba, OAB, Secretaria Municipal de Saúde e Sociedade Civil Organizada, mas não houve resposta, havendo normose. 
No artigo “A síndrome do sapo cozido”, expliquei: colocado o sapo em panela com água em temperatura ambiente, essa panela foi levada ao fogo brando, de tal modo que a temperatura foi aumentando lentamente, até chegar à ebulição. O sapo, com a elevação lenta da temperatura, não percebeu a gravidade do fato, morrendo cozido. Este caso mostra que também nosso cérebro e nossa cognição estão cozidos, pois não percebemos o crescimento lento da normose que permite seres humanos desprotegidos morrerem, sem socorro, próximos aos locais de atendimento de alta complexidade.
Em Uberaba, a tradicional cooperativa de leite Copervale, sólida em seu passado, por uma sequência de fatos não contornados pela sua administração, foi lentamente caminhando para o seu fechamento. O curioso: os cooperados, donos da empresa, sabiam o que estava ocorrendo, mas se acomodaram em normose, que levou a um estado de inanição mental dos cooperados, permitindo atitudes desastrosas da administração. Winston Churchill dizia que “a coragem é aquela virtude que mantém as demais virtudes vivas”. Aos primeiros sinais de que o futuro da Copervale seria incerto, devido a uma gestão temerária e a falta de transparência, fatais para qualquer cooperativa, se um pequeno número de cooperados tivesse tido a coragem de realizar uma Assembleia Geral Extraordinária onde a pauta seria prestação de contas, não apenas aprovadas por um Conselho Fiscal, certamente inoperante ou conivente, mas sim através de uma auditoria externa, medidas drásticas saneadoras teriam sido tomadas e teríamos ainda hoje uma Copervale viva e pujante. Em Medicina a doença precisa ser diagnosticada e tratada já na fase inicial, pois a precocidade é uma aliada do sucesso. A Copervale faleceu sem tratamento.
Enfim, normose é um processo de condicionamento coletivo onde, uma vez implantado, passamos a aceitar o inaceitável.


Nilson de Camargos Roso

n.roso@me.com

Academia de Letras do Triângulo Mineiro, cadeira 6

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por