Confúcio, filósofo chinês (551 a 479 a.C.), dizia que “o exemplo deve vir de cima”. O confuso Brasil de hoje, sufocado por diversas inseguranças (pública, jurídica, política, tributária e institucional), necessita de bons exemplos que venham de nossas autoridades. O presidente Itamar Franco (mandato de 29.12.1992 a 01.01.1995) nos deixou pelo menos três bons exemplos de cidadania e de governança.
O primeiro exemplo nos foi narrado pelo uberabense e embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa, que era chefe de Gabinete do presidente Itamar. Era o mês de junho de 1994 e estava no Gabinete, despachando com o presidente, quando entrou o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (FHC), que disse: “presidente, não há como implantar o Plano Real em julho próximo”. Itamar respondeu: “o Plano Real será iniciado em julho”, o que de fato ocorreu. Essa atitude mostrou firmeza e determinação de Itamar, perante o vacilo de FHC, embora a maioria dos historiadores sempre atribuam o mérito do plano a FHC, que pode ser explicado pela sua facilidade de comunicação junto à grande mídia e, por outro lado, em atitude oposta, Itamar preferia entrar pela porta dos fundos do palácio do Planalto, fugindo dos repórteres. Passou para a história o nome daquele que soube se comunicar melhor. Mas os possuidores de boa cognição sabem do maior valor do presidente Itamar, até para escolher os seus subordinados ministros.
O segundo fato que referenda Itamar foi quando Antônio Carlos Magalhães (ACM) disse publicamente no Senado que tinha provas de sua corrupção. Itamar o convidou a comparecer ao seu Gabinete, levando as provas. ACM compareceu, levando uma pasta com as supostas provas. Nesse momento, Itamar abriu uma das portas para a entrada de repórteres que deveriam presenciar o ato. ACM não apresentou as provas da corrupção, mas depois apresentou denúncias de irregularidades na aplicação de verbas federais em prefeituras da Bahia, envolvendo um adversário político seu, o ministro baiano Jutahy Júnior. Itamar encaminhou o dossiê para investigação rigorosa pelo Ministério da Justiça, o que constrangeu ACM na ocasião, pois a ação demonstrou transparência por parte de Itamar. Transparência é a luz que clareia e demonstra a realidade acontecida e ganha a confiança popular. Mais uma vez, Itamar brilhou.
O terceiro fato ocorreu quando políticos acusaram Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil, de ser corrupto. Itamar, imediatamente, afastou Hargreaves do cargo, por 6 meses, quando terminou o inquérito, que nada comprovou. A atitude foi vista como um exemplo de ética, com Itamar exigindo que Hargreaves se defendesse como cidadão comum, e não como ministro. Itamar, então, disse: “aceito pedido de desculpas por parte daqueles que o acusaram”.
A crise moral é a mãe de todos os males que acometem o Brasil de hoje, pois ela retira as argumentações legais que deveriam nortear nossas condutas, impedindo a punição dos criminosos. Precisamos de exemplos de outros Itamares nos dias de hoje que nos convençam pelas suas ações coerentes, corajosas e transparentes, e não pelas narrativas próprias das pessoas falantes e construtoras de uma falsa realidade, pois seguem as orientações de Antônio Gramsci (“aquele que domina as palavras constrói a realidade desejada”) e cujas ações são destrutivas, refutando os valores morais dos cidadãos de bem.
Somente Diógenes, com sua lâmpada, poderá encontrar no Brasil atual uma autoridade com as atitudes de Itamar.