ARTICULISTAS

Os falsos vestibulandos na FMTM

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 16/01/2026 às 22:20
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Era noite dos primeiros dias de janeiro de 1988 quando recebi um telefonema de uma mãe que se identificou apenas como residente em Goiânia, GO. Ela perguntou se eu era o diretor da FMTM. Confirmei. Ela fez este relato: “meu filho vai prestar o vestibular de Medicina na FMTM nos próximos dias. No entanto, pais de alunos que desejam que seus filhos façam Medicina contrataram outros jovens para fazer o vestibular por eles”. Insisti, mas a mãe não se identificou.

Naquela mesma noite, comuniquei essa possível situação ao assessor de Ensino da FMTM, professor Dr. Édison Reis Lopes, para as providências necessárias para antagonizar o malefício previsto. Nos dias seguintes, foram feitas reuniões conjuntas com os diretores de colégios e de cursinhos para vestibulandos, criando o esquema abaixo:

1 - Na sala de aula, durante a realização das provas do vestibular, cada candidato deixava ao seu lado documento de identidade, que era verificado por um fiscal;

2 - Ao terminar a prova, cada candidato, ao lado da sua assinatura na lista de presença, deixava ali sua impressão digital;

3 - O aprovado, ao realizar a matrícula, novamente assinava esse termo e era obtida nova impressão digital;

4 - Todo esse material foi analisado pelos policiais civis e militares, conhecedores das análises grafotécnica e grafológica. Nenhuma irregularidade foi encontrada e todos os aprovados foram admitidos como alunos.

No final de 1988, eu disse ao dr. Édison: “se no ato da matrícula veio o falso aluno fazer a mesma e se colheu nova assinatura e impressões digitais dele, mas cerca de 15 dias após, quando houve o início do curso médico, compareceu o aluno que pagou o falso aluno, não foram colhidas novas impressões digitais e nem nova assinatura do admitido. Não impedimos que a fraude ocorresse. No jargão popular: “passamos batidos”. Erramos, mas no próximo ano faremos diferente.

No vestibular seguinte, fizemos o que foi feito em 1988, mas solicitamos à Fundação Vunesp, responsável pela elaboração das questões do vestibular, cópia da dissertação de cada aluno admitido. O vice-diretor da FMTM, professor Carlos Antônio Dib, juntamente com o professor Édison, compararam as grafias da dissertação com as das provas escritas de Anatomia e Histologia do ano em curso. Foram descobertos 4 falsos alunos. Em maio, estando todos os alunos em sala de aula, os grafotécnicos da Polícias Civil e Militar colheram as assinaturas e impressões digitais de todos eles. Foram confirmadas ali, por pessoas legalmente capacitadas, as fraudes nas assinaturas e nas impressões digitais colhidas, comparadas com aquelas obtidas durante o vestibular. Obtivemos as provas da falsidade material, caracterizadas como crimes.

No dia seguinte, em matéria paga pela FMTM, os três jornais de Uberaba trouxeram manchete na primeira página “Expulsão de 4 falsos alunos da FMTM sem direitos de defesa”, pois as evidências do crime foram claras. Pessoalmente, levei o relatório do ocorrido, protocolizado na sede da Polícia Federal, na época localizada na rua Segismundo Mendes, em frente ao portão de entrada do Jockey Club.

Helvécio Moreira de Almeida Júnior, do Planejamento, encarregou-se de convocar os quatro alunos seguintes da lista de aprovados no vestibular para preencherem as vagas surgidas. Apenas um, residente na área rural de Paracatu, MG, teve familiares localizados, que foram avisar o jovem na área rural, mas responderam que ele viria a Uberaba somente no dia seguinte, último dia para a matrícula. Helvécio aguardou a chegada do aluno, mesmo após o horário das 17 horas, quando fechava o expediente. O jovem, de nome César, de etnia africana, foi aguardado até após as 18 horas, quando então fez a matrícula. Porém, como já havia decorrido 3 meses do ano letivo, César não pôde ser aprovado e entrou na FMTM juntamente com os admitidos em 1990. Hoje, exerce com competência a especialidade de otorrino em Paracatu.

Albert Einstein dizia que “a maior força do mundo não é a da bomba nuclear, mas a força de vontade”. O Diretor de uma instituição, pública ou privada, se tiver interesse em melhorar a sociedade, deve parar de criticar as falhas desta e procurar, dentro da legalidade e do bom senso, dar sua contribuição e, se tiver força de vontade, ajudará a melhorar nosso país. Em tempo: um sobrinho meu, aprovado no vestibular de Medicina de 1988 da USP de Ribeirão Preto, foi abordado para fazer provas para terceiros. 
Este é um relato de um fato grave, consistente e palpável que houve no passado, mas, com a crise moral existente no Brasil, é possível que ainda exista. Basta ter força de vontade e investigar.

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