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Por que Uberlândia se desenvolveu mais?

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 08/03/2025 às 11:01
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O médico, ao tratar o paciente, necessita conhecer a história (anamnese) do mesmo, fazer exame físico e, por último, solicitar os exames complementares para, enfim, fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento. Ao abordar o desenvolvimento de uma cidade ou região, é também necessário conhecer a história da mesma, saber as ações políticas que promoveram o desenvolvimento e, se possível, conhecer os nomes dos figurantes. 

No início do século passado, Uberaba e Uberlândia se equivaliam, seja no número de habitantes, seja na principal dificuldade de expansão do comércio e da instalação de indústrias: o deficiente fornecimento de energia elétrica para ambas.

Em 1926, “Doca” Ferreira escreveu o livro “Terra madrastra”, onde relata que lojas comerciais e indústrias procuravam se instalar preferencialmente em Uberaba, pois “o desenvolvimento vinha do Sul”, ou seja, de São Paulo, onde a primeira cidade encontrada em Minas Gerais era Uberaba. Porém, conforme citações do livro, Uberaba não as recebeu, indo muitas delas se instalar em Uberlândia.

Na década de 1930, meu pai, Anatólio de Araújo Roso, em sociedade com Guilherme Dorça, criou a primeira empresa de transporte coletivo urbano em Uberaba. Após alguns meses, os taxistas da época, chamados de “motoristas ou chauffeurs de praça”, fizeram piquetes em frente à Prefeitura Municipal, alegando que “os ônibus os estavam prejudicando, tirando os seus clientes”. Na realidade, estes motoristas se esqueceram que eles tiraram os clientes das charretes, que transportavam os passageiros na cidade e, no futuro, os metrôs tirariam clientes dos ônibus. Era a evolução do transporte coletivo. 
O prefeito não suportou a pressão dos motoristas e cassou o alvará de funcionamento da empresa de ônibus. Guilherme Dorça então mudou para Uberlândia, onde se casou com a filha de Carlos Saraiva. Empreendedor, logo criou a “Casa Carlos Saraiva”, que no final dos anos oitenta a transformou nas “Lojas Mig”, bem conhecidas no Brasil Central. Guilherme era o pai do Luiz Fernando Dorça, que criou em Uberaba a “Facthus” (Faculdade de Talentos Humanos). 

A importância da citação de Guilherme Dorça: de tempos em tempos ele se comunicava com meu pai, relatando aspectos do desenvolvimento do comércio em Uberlândia. Dizia ele que, já na década de quarenta, o embrião do comércio atacadista já havia sido plantado em Uberlândia, com uma estratégia: os comerciantes locais se reuniam na Associação Comercial para efetivar as compras dos vendedores que, uma vez ocorridas, era dito “vendedores, agora voltem para as suas origens e não transponham o rio Paranaíba, pois, caso o façam, não compraremos mais de vocês”.
Esta conduta explica por que, não havendo naquela época compra pela internet (e-commerce), em Goiânia, e, durante a construção de Brasília, as compras eram feitas em Uberlândia, consolidando esta cidade como possuidora de intenso comércio atacadista. 

Em 1977, foi criada a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), através de inteligente manobra de Rondon Pacheco, ministro da Casa Civil do então presidente Ernesto Geisel, fato a mim narrado pelo ex-reitor da UFU, Professor Antonino Martins. Geisel, gaúcho, tinha um compromisso político: criar na cidade de Rio Grande, RS, uma Universidade Federal. Ao passar esse projeto pela Casa Civil, Rondon acrescentou: “estendam-se os benefícios acima citados criando-se também a Universidade Federal de Uberlândia, em Uberlândia, MG”. Foi a pessoa certa, no lugar certo, tomando a atitude politicamente certa para a cidade de sua origem.

Criada, a UFU contratou mais de 3.000 servidores, entre docentes e não docentes federais, trazendo um impacto financeiro positivo para a cidade, somado ao fato que, por décadas, a UFU e a Universidade Federal de Viçosa pagavam o dobro de salários aos seus servidores, comparadas com as demais universidades federais. A UFU contratou uma centena de servidores com formação Superior e colocou grande parte deles como assessores dentro dos diversos ministérios em Brasília, o que facilitava o conhecimento precoce, a elaboração e a aprovação de projetos de interesse da UFU, colocando-a em vantagem sobre as demais universidades.

Um deles foi o médico José Tavares Carneiro Neto, o primeiro presidente da Comissão Nacional de Residência Médica no MEC, em Brasília, tendo sido, anos depois, professor na FMTM. Enfim, os profissionais contratados eram uma ponta avançada olhando os interesses da UFU em Brasília. Uberlândia, conhecida até então pelo seu comércio pujante e como terra de forasteiros, com a UFU, “pegou barranco”, ou seja, houve sensível melhora das suas densidades científica, cultural e intelectual.

Na década de setenta, no dia da inauguração da Hidroelétrica de Volta Grande, o colega neurocirurgião Marco Antônio Amui Salum acompanhou o presidente Geisel em viagem de helicóptero, do aeroporto de Uberaba até Volta Grande. Esse colega me relatou que o presidente Geisel, durante a viagem, disse: “é a primeira vez que vejo uma usina hidrelétrica de grande porte ser inaugurada e não estar ligada por asfalto à cidade polo mais próxima”. O responsável por essa situação foi Rondon Pacheco, que, como governador de Minas Gerais, utilizou a verba destinada a asfaltar Uberaba/Volta Grande e asfaltou Araxá/Uberlândia, conhecida como “rodovia do carnaval”. No entanto, os mapas rodoviários da época, erradamente, mostravam asfalto do trecho Uberaba/Volta Grande e ausência de asfalto no trecho Araxá/Uberlândia. O poder político predominou sobre as decisões técnicas.

Inesquecível: antes de Rondon Pacheco ser escolhido pelo governo militar como governador de Minas Gerais, um importante político de Uberaba foi escolhido e convidado para ocupar tal cargo, mas não aceitou. Daí ser sempre atual a afirmação “ação política eficaz é aquela que nunca deixa passar o cavalo arreado”. Uberlândia montou no cavalo. Rondon foi o maior responsável pelo desenvolvimento e crescimento de Uberlândia. Uberaba, por sua vez, abdicou de ter o seu Rondon, deixando o cavalo arreado passar.

Este é um fato deprimente, motivo pelo qual não revelo o nome do político.
Apesar de seus méritos, Uberlândia também se caracterizou por ser politicamente predadora de suas cidades vizinhas, com a transferência da Faculdade de Medicina Veterinária de Tupaciguara para Uberlândia. Ex-prefeito de Uberaba, Paulo Piau, natural de Patos de Minas, relata que Uberlândia fez proposta e retirou da sua cidade natal uma indústria que estava lá há mais de trinta anos.

As ações de Uberlândia, para crescer, foram também dirigidas aos viajantes vendedores de material farmacêutico. Valter Celani, o famoso Tati, meia-esquerda do Uberaba Sport, do Palmeiras e do Internacional de Porto Alegre, após encerrar sua carreira no futebol, trabalhou como vendedor da empresa farmacêutica Carlo Erba. Dizia o Tati que os vendedores eram pressionados para residirem em Uberlândia, assim como a se tornar eleitores e a emplacar o carro em Uberlândia. Tati resistiu. Movimento foi feito junto à Carlo Erba, para demiti-lo. Porém, Tati era muito popular e excelente vendedor. Por isso, não foi demitido, continuando a morar em Uberaba.

Durante o governo da presidente Dilma, o líder do governo na Câmara Federal era o deputado de Uberlândia Gilmar Machado, que destinou verba de mais de um bilhão de reais para Uberlândia, onde o prefeito na época, Odelmo Leão, era seu adversário político. É admirável e virtuoso um político enviar verbas pensando no bem comum, que é o desenvolvimento da cidade, e não se incomodar com o adversário prefeito, que recebeu o título de “realizador de obras”. Poucas pessoas agiriam como Gilmar Machado, pois vemos, com frequência, cada político se preocupar mais em antagonizar o adversário do que com a coletividade.

Na época, um conhecido colunista de um jornal uberabense escreveu: “está sendo investigada a aplicação irregular da verba do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Uberlândia. Curioso é que a imprensa de lá nada publicou. Mas, se fosse em Uberaba…”. Esse fato demonstra que a imprensa de Uberlândia somente se manifesta quando há um aspecto positivo a ser divulgado.

Este texto não traduz a visão de um historiador e nem a de um economista, mas sim as observações de um uberabense que sempre desejou o melhor para a nossa cidade, na esperança de que nossos atuais políticos conheçam não muitos fatos, mas apenas alguns que fizeram a Uberlândia de hoje.

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