O autor dessa frase é o ex-presidente do Brasil, Juscelino Kubitscheck (JK, 1956-1961), de temperamento sereno, conciliador e cauteloso. Assumiu o país em condições de turbulência, onde muitos acreditavam que não terminaria seu mandato. Era um legítimo mineiro, dotado de inteligência emocional, sabendo “comer o mingau quente pela beirada”, “nunca elogiou o burro antes que esse subisse o morro” e “sabia em qual mato existia onça”.
Mesmo quando incitado, não entrava em polêmicas. Repassou o comando de um Brasil politicamente estável a Jânio Quadros, de modo republicano.
Ao assumir a direção da FMTM em 22.10.1985, procurei me inspirar nas ações de JK. Já no dia seguinte, os alunos dos três primeiros anos do curso médico, umbilicalmente ligados ao outro candidato à direção, iniciaram greve devido à minha nomeação.
Fui a uma assembleia que durou 2 horas, convocada por esses alunos, onde uma representante da União Nacional dos Estudantes (UNE) vociferou por 20 minutos, exigindo que eu renunciasse ao cargo assumido. Respondi que o Brasil passou por um período difícil quando um presidente da República renunciou e, portanto, “no meu dicionário não havia a palavra renúncia”.
A questão básica: eu havia perdido por goleada na votação entre os alunos. Retruquei então: “a votação entre os alunos foi feita com o outro candidato acompanhando a urna de votação, sem fiscais e sem data marcada para a votação, fato que não ocorreu na votação dos professores e dos técnico-administrativos.” Um aluno propôs que se fizesse nova votação. Respondi: “se eu não fosse nomeado, bastaria vir aqui e pedir nova votação? Vocês fariam?” Silêncio total.
Outro aluno me perguntou “quanto eu havia recebido para ser o testa de ferro do grupo de pessoas que eu representava”. Perguntei a esse aluno o nome, o ano que cursava e se ele confiava em mim. Respondeu as duas primeiras perguntas, mas a última dessas “respondeu que não confiava em mim”. Respondi que “quando uma pessoa não tem credibilidade, realmente não pode ser ouvida e, como eu não tinha essa credibilidade, poderíamos passar à questão seguinte”.
No final da assembleia, disse aos alunos que deveriam lançar mão de tudo que a ética e a lei permitissem, que fossem aos veículos de comunicação e às autoridades, a fim de me demitirem. Forneci aos alunos, a pedido deles, o mimeógrafo do Hospital Escola, assim como os papéis e a tinta para fazerem panfletos contra minha nomeação. Um aluno então disse: “eu não o conhecia, mas me encarrego de retirar todos os cartazes ofensivos à sua pessoa.” Eu o agradeci.
A greve durou uma semana, sem a participação dos demais alunos e dos médicos residentes. O comando de greve foi feito por cinco alunos do quinto ano, que, por serem grevistas, perderam a prova de Endocrinologia dada pela professora Maria Aparecida Barros. Estes alunos me procuraram para reverter essa situação, pois, não fazendo a prova, seriam reprovados. Falei com o professor titular de Clínica Médica, dr. Randolfo Borges, que intercedeu, e a prova de Endocrinologia foi dada e os cinco alunos foram aprovados.
Dias após, fui procurado pelos alunos do Centro Acadêmico Gaspar Viana, que deram um cheque sem fundo para a empresa Líder levá-los de ônibus a Brasília, em audiência com o ministro da Educação, pleiteando a nomeação do outro candidato. Falei com Carlos Antônio Gomes, do Departamento de Orçamento e Finanças, que fez o pagamento do referido cheque.
Um dos alunos do comando de greve prestou exame para Residência em Clínica Médica, sendo aprovado, mas não obteve classificação. Em maio de 1987, um residente de Clínica Médica desistiu. A regra era chamar o substituto até março. Portanto, legalmente o prazo havia expirado. Mesmo contra a legislação, esse aluno que pertencia ao comando de greve, foi convocado para a Residência em maio. Hoje é um profissional de sucesso em Ribeirão Preto.
Estando no exercício do poder, é relativamente fácil dificultar ou prejudicar as ações daqueles que foram opositores políticos, respondendo a eles com a suprarrenal. É provável que eu não tenha conseguido, como diretor da FMTM, ações semelhantes à altura de JK, mas me esforcei para sê-lo.
Nos dias atuais, o Brasil necessita de muitos JKs na política.