No ano de 1987 eu era o diretor da FMTM. No período da manhã, na ala administrativa do Hospital Escola (HE), fui abordado por um professor da área da cirurgia. De modo rápido e incisivo, me perguntou “onde está aquela sua crioula?” Respondi que eu não tinha nenhuma crioula. O colega então disse “é aquela sua enfermeira-chefe.”
Ele se referiu à chefe geral da Enfermagem, Maria Aparecida Xavier, dona Cida. Eu a escolhera por ser uma pessoa competente, trabalhadora incansável, honesta e humilde, predicados que incomodavam muitas pessoas no serviço público. Em momento algum eu a escolhera por ser mulher e ser de etnia negra. Escolher uma dirigente por ser apenas mulher é retirar da mulher a sua capacidade de trabalho e de luta. Escolher uma dirigente apenas por ser negra é retirar dos nossos irmãos africanos a mesma capacidade de competência e de luta pelo bem. Eu a escolhi não foi porque era mulher e negra, mas porque era a melhor que tínhamos no quadro da Enfermagem.
Respondi ao colega “fale com o Romeu (Machado Rocha Junior), diretor administrativo, nesta sala aqui em frente, que a chamará.” O colega então disse “ela trocou um paciente meu na escala de cirurgia, colocando o de outro cirurgião, e por isso vou enfiar a mão na cara dela.” O colega entrou na sala e minutos depois dona Cida também entrou.
Resolvi não entrar na sala de imediato. Aguardei alguns minutos e entrei, deparando com um quadro assustador. Dona Cida estava sentada e o Romeu ao lado dela. No exato momento da minha entrada o colega estava em pé, com o braço direito esticado, a mão aberta que chegava próximo ao rosto da dona Cida, dizendo essas palavras “quem é você para trocar um paciente meu? Olhe nos meus olhos. Você duvida que eu lhe enfie essa mão aqui na sua cara?”
Neste momento, eu disse “não sei o que está acontecendo, mas um fato eu sei: não é assim que se fala com as pessoas. Vou à sala ao lado pedir a diretora clínica, professora Maria Cristina Silva, para apurar o ocorrido.”
Assim foi feito. Minutos após, o colega também entrou na sala e assentou, pálido, o que é uma característica da descarga pós-adrenérgica. Pedi à diretora clínica dizer se havia apurado um fato esclarecedor. Ela respondeu que “foi o cirurgião fulano que solicitou a troca”. O colega retrucou “mas ninguém me disse nada”. Respondi a ele “a dona Cida também não sabia de nada e, neste momento, ela está em pane mental, pois suas palavras a massacraram. Se ela me escrever sobre o ocorrido, vou encaminhar o ofício dela para a Comissão de Ética do HE.”
No mesmo dia procurei a dona Cida e solicitei que ela me escrevesse, inclusive com a frase que ouvi “você duvida que eu lhe enfie a mão na cara?”. Pedi a ela que deixasse o ofício do fato relatado com o Romeu.
Na semana seguinte, passei na sala do Romeu e pedi que me entregasse o ofício que a dona Cida escrevera. Ele respondeu que não recebera nenhum ofício. Procurei a dona Cida e perguntei porque não escrevera. Ela me respondeu que escrevera e entregara ao Romeu, que o colocara na gaveta de cima do lado direito da mesa dele.
Fui ao Romeu e perguntei porque não quis me entregar o referido ofício. Romeu me respondeu “eles vão dar o troco no senhor no próximo processo sucessório”. Respondi que “pessoas sem princípios e sem valores ficam do lado mais forte contra o mais fraco, mesmo que o fraco esteja correto. Mas esse não é o meu caso”.
Recebi o ofício. Redigi, carimbei e assinei um segundo, encaminhado ao presidente da Comissão de Ética do HE, professor Tolstói Junqueira de Moraes, “para as providências que este caso requer”. Dias após, o colega referido foi chamado à Comissão de Ética.
Este caso ocorreu há 39 anos. Se em 1987 houvesse as atuais leis, a análise a ser feita seria essa:
O caso relatado não poderia ter sido encaminhado apenas à Comissão de Ética, pois houve fatos graves que estão muito acima da infração ética, agravados por um professor que, por definição, é um formador de opinião e este deve, além da transmissão do conhecimento, dar exemplo de cidadania;
houve evidente caso de racismo praticado por esse professor;
houve grave assédio moral, caracterizado pelas palavras ofensivas e pelo gesto da mão agressiva próxima ao rosto da enfermeira.
O processo eleitoral para diretor da FMTM ocorreu em 1989. O meu candidato foi o professor Édison Reis Lopes, uma das pessoas mais íntegras e de melhor caráter que conheci. Conforme o Romeu previra, perdemos a eleição, confirmando que na vida recebemos ou pagamos tributos pelas nossas ações. Mas preferi que minhas ações falassem mais alto que o tributo que paguei por perder a política, certamente agradando ou desagradando pessoas, independente da ideologia política delas. Mas a firmeza de caráter é mais importante que a ideologia política.
Nilson de Camargos Roso
Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
n.roso@me.com