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A árvore e a chuva

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 23/03/2026 às 17:40
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A chuva veio pela manhã. Era por volta de dez horas. Quando acordei, ainda não era possível determinar se viria, a não ser pelo zumbido de um mosquito atrevido. Tomei meu café da manhã, deu tempo de lavar a louça, mas não consegui decidir o que fazer. Indeciso, aguardei o tempo deliberar. Guardei roupas, separei livros para posterior leitura, varri a casa. Era um sábado e a expectativa era uma volta no parque, caminhar sem rumo por entre jardins à sombra de árvores. Aí a chuva veio, mansa, sem trovões nem relâmpagos. Adiei o passeio e fui pensar no almoço.

Ela durou cerca de vinte minutos. Cessou como começou, sem alarde, sem vento forte. Meu avô chamaria de chuva criadeira, dessas em que as galinhas reúnem os pintainhos sob as asas, bezerros buscam um pedaço de telhado para se abrigar, cavalos ajeitam-se debaixo de um beiral. Quem teve de sair que tenha tido tempo de olhar o céu e formar melhor juízo sobre as probabilidades meteorológicas. Que tenha pego um guarda-chuva ou uma capa, talvez um casaco leve. Tomara que os ônibus não fiquem lotados, pois os vidros ficam embaçados, deixando o ar interno carregado, soturno.

A chuva caiu, molhou calçadas, telhados e os sapatos dos que não se protegeram a tempo. Fui para a janela observar a vida lá fora, explorar comportamentos alheios, avaliar os tipos e seu jeito de encarar a chuva. Uma grande árvore me chamou a atenção mais do que tudo.

A chuva molhou as folhas mais altas e a água se espalhou em torno. As águas desceram devagar. As folhas mais baixas pouco se molharam. Se eu quisesse me abrigar da chuva, iria me posicionar bem junto ao tronco, provavelmente não me molharia. Dizem que não é uma boa ideia, devido aos raios. Mas eu estava na janela, só comtemplando, bisbilhotando a precipitação matinal, distraído, ensimesmado com problemas cotidianos e outros nem tanto.

A chuva aumentou, os poucos pedestres que ainda ousavam enfrentar o aguaceiro escassearam, esconderam-se dentro de lojas, debaixo de marquises — que quase não existem mais. Os adeptos de sua extinção talvez nunca tenham precisado se esconder de uma chuva forte.

Vinte minutos depois, já não tinha chuva. O tempo se abriu e o calor secou as poças d’água restantes. Pareciam espelhos refletindo a copa verde da árvore, mas sumiram no apressado fim da manhã. Equilibrando-se na ponta das folhas, frágeis pingos, como se fossem lágrimas, tentavam se agarrar para não cair no vácuo. Queda inevitável e mágica. Num instante, o tronco secou, o vento derrubou as últimas gotas e as ruas voltaram a pulsar, esquecendo a chuva. Convidei amigos para o almoço.

O passeio no parque ficou para o próximo sábado, mas lições de beleza e simplicidade fortaleceram-se naquela manhã, que começou chuvosa e terminou num almoço com muitos elogios à vida e à biodiversidade.

 Renato Muniz B. Carvalho

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