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A chuva e eu

Renato Muniz Carvalho
Publicado em 19/10/2026 às 19:21
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Minha relação com a chuva está cada vez mais complicada. Não ouso falar em rompimento, porque isso seria inviável — e eu não vivo sem ela. Mas tem dias em que acho a ruptura inevitável. Nossa relação, desde que me recordo, sempre foi de amor e ódio, de paixão e raiva, mas o saldo sobressaiu-se positivo. O carinho e o encantamento prevaleceram. Ela sempre me seduziu, me trouxe doces momentos e belas recordações.

Ah, como foi bom, em certos dias chuvosos, me sentar numa cadeira confortável na varanda e ficar ali a tarde toda lendo algum livro que me tocou profundamente. Sem a chuva, creio que teria faltado alguma coisa. Ela caía suave, constante, amorosa. Foram poucos esses momentos, mas memoráveis. Saibam que tentei muito fazer com que ocasiões assim se repetissem. Não consegui. A cadeira estava pronta, a leitura reservada, a vontade a postos, mas a chuva faltava ou vinha com pressa, brava, barulhenta.

Ela me ajudou muito nas noites insones, nos piores pesadelos, nas angústias cotidianas. Quantas vezes fiquei acordado só para sentir o instante em que ela me conduziria ao sono. Eu adormecia, mas acordava novamente só para ver o processo se repetir. Se vocês não sabem ou nunca sentiram algo assim, saibam: é mágico, uma sensação única. Fiquem atentos a uma noite de chuva. Observem sua evolução. Quando ela se estabilizar e vocês sentirem que vai durar a noite toda, vão se deitar, apaguem a luz, ouçam com atenção as gotas pingarem… é maravilhoso.

Ainda bem que as boas recordações predominam, mas não posso me esquecer das tempestades, dos vendavais, das inundações, dos raios e dos aguaceiros que carregam tudo morro abaixo. Às vezes, ela causa medo e insegurança, arrasta carros, derruba casas, provoca enchentes. Essas ocorrências, tratadas erroneamente como desastres naturais, não me fizeram perder a esperança, mas abalaram minha confiança irrestrita na chuva. Tem hora que eu gostaria que ela não viesse, mesmo sabendo que os desastres são socioambientais.

De qualquer forma, quando consigo imaginar um novo mundo, ela está presente: intensa ou suave, venha à noite ou durante o dia, dure poucos minutos ou a semana inteira, pouco importa. A construção de um novo mundo terá um lugar reservado a ela, e não será para culpá-la pelos nossos desatinos, pelas desigualdades sociais e pelas ocupações insensatas do território. Assumiremos a responsabilidade pelos desastres e infortúnios. Devemos mudar as relações humanas e melhorar nossa compreensão da vida e da natureza para garantir uma convivência mais harmoniosa entre nós.

A chuva melhora a qualidade do ar, abranda o calor, refresca os ambientes. E o cheirinho bom de terra molhada? E o som gostoso das gotas batendo nas pedras e nas folhas? Essas coisas renovam nossa perspectiva dos afetos e dos carinhos. Sem a chuva não teríamos árvores, flores, alimentos, rios, lagos, mares. A própria poesia ficaria desfalcada.

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