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A fábrica de brinquedos

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 01/06/2026 às 18:10
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Eu tinha resolvido. Depois de me aposentar, iria me dedicar às atividades empresariais. Levantaria meus parcos recursos financeiros, pediria um financiamento e viraria industrial. Não queria ser um Delmiro Gouveia, um Barão de Mauá ou um Henry Ford; minhas pretensões eram bem modestas. Decidi investir numa fábrica de brinquedos. Nessa primeira fase do empreendimento, receberia de bom grado valiosas contribuições dos amigos. Contribuições em termos de ideias, bem entendido; não pretendia me indispor com ninguém no início da carreira nem criar constrangimentos, muito menos me endividar.

Poderia ter escolhido qualquer ramo, mas, por ter me dedicado tantos anos ao Ensino Fundamental, achei melhor focar no setor de brinquedos. Faltava definir como estruturar a linha de produção e que brinquedos seriam fabricados.

Inicialmente, pensei em fabricar carrinhos e outros objetos de madeira. Fiz pesquisas, conversei com muita gente, fui a festinhas de aniversário com a finalidade de observar o comportamento das crianças e o tipo de brinquedo que mais agradava ao público, inclusive aos pais. Até os avós se encantavam com os presentes que chegavam. Alguns ficavam relegados a segundo plano, outros atraíam a atenção da maioria. Prefiro omitir essa parte da pesquisa para não influenciar ninguém nem comprometer a seriedade do processo.

Apesar de ser um entusiasta dos brinquedos de madeira, logo desisti da ideia. Esses brinquedos despertavam sentimentos de aceitação e empatia, mas percebi que agradavam mais aos adultos do que às crianças. Além disso, notei nas minhas andanças uma certa preocupação pelo fato de serem de madeira. Algumas críticas apareciam mesmo quando eu dizia que a origem era sustentável, de reflorestamentos. As pessoas implicam com brinquedos de madeira, mas aceitam o desmatamento, os incêndios florestais, a contaminação das águas. Vai entender!

Deixei os de madeira de lado e pensei nos brinquedos de metal. Instrumentos musicais, carrinhos e imitações diversas poderiam fazer sucesso, mas me preocupou a possibilidade de causarem ferimentos, entre outras inconveniências relativas ao uso de metais em brinquedos, sem considerar a ferrugem. Desisti, sem arrependimentos.

A próxima etapa foi avaliar os brinquedos de plástico. Um mundo de possibilidades se abriu. Afinal, pode-se dizer que o mundo hoje é feito de plástico. Comemos e bebemos plástico, guardamos uma infinidade de coisas em recipientes plásticos, sem contar a facilidade de fabricar quase tudo, de carrinhos a grandes estruturas, como parques infantis, escorregadores, balanços, piscinas de bolinhas e por aí vai. Críticas de amigos ecologistas me fizeram desistir da empreitada. Não seria eu a contribuir para agravar a poluição dos sete mares, a aumentar a degradação ambiental.

Por último, concentrei meus esforços no setor de eletrônicos, de informática. Sem dúvida, eram os brinquedos que mais atraíam os pequenos. Não pude ir adiante, deparei-me com interesses poderosíssimos que me impediram de continuar. Era um mercado restrito, enfrentá-lo não seria brincadeira. A infância ficou para trás. Vou abrir um bar.

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