Meninos em férias costumam inventar brincadeiras, experimentar ousadias, fazer arte, atirar pedras em caixas de marimbondo, jogar bola até escurecer, reclamar da chuva, brincar com fogo, ler até de madrugada, dormir tarde e acordar na hora do almoço. Enfim, agitação, criatividade e muita energia. Ninguém pode dizer que aproveitou a infância se não aprontou alguma algazarra, se não quebrou alguma vidraça. Quem não apreciou um instante de bagunça, de relaxamento e folia? Atire a primeira pedra… Opa! Não faça isso.
Dizem que bons tempos foram aqueles que antecederam a TV, os videogames, os shopping centers; antes das ruas perigosas por causa de motoristas irresponsáveis, da velocidade e da violência urbana. Quem podia ia para roça, para casa dos avós ou fazia longos passeios de bicicleta na periferia das cidades pequenas do interior. Uns dizem que isso é que era felicidade. Tenho minhas dúvidas, mas tá valendo.
Existe receita de felicidade? Existem regras que não podem ser quebradas? No mundo em que vivemos, só existe o certo e o errado? O sim e o não? O claro e o escuro? O antes e o depois? A felicidade e a tristeza? Prefiro pensar que existem infinitas possibilidades, conexões e combinações diversas. As formas de aprendizagem são conquistadas conforme as capacidades e desejos de cada um. Afinal, infância é tempo de descobertas, de experiências e desafios, de erros e acertos — tudo ao mesmo tempo.
Uma atividade muito comum no passado, mas que hoje é incompreensível e condenável em todas as circunstâncias, era armar arapucas para pegar passarinhos. Na fazenda do meu avô, o objetivo da meninada era aprisionar as pobres avezinhas em gaiolas. Talvez aquilo desse aos meninos uma sensação de poder. A investida sobre esses seres frágeis era tão comum que poucos questionavam o que estava por trás desse costume besta. Mesmo sem conhecer a fundo a filosofia, considerações éticas não podiam ser negligenciadas. É justo aprisionar as aves, cuja graça está justamente em voar livres, cantar e nos encantar com seu colorido e alegria? Precisamos prendê-las para usufruir de sua beleza e diversidade?
Hoje, penso na armadilha da felicidade artificial, adquirida à custa de dinheiro e de outras relações de poder. É fácil cair nessa arapuca. As pessoas se contentam com bombons coloridos, refrigerantes doces, instrumentos de fabricar ilusões, quase sempre eletrônicos, recheados de chips, de metais pesados. Verdadeiros bombons tecno-informacionais de plástico.
Tenho receio das arapucas que vendem o mundo perfeito, o progresso a qualquer preço, a superficialidade que limita o raciocínio. Da arapuca do passado idealizado e consumido como cilada política. Tenho medo das armadilhas modernas, sutis, disfarçadas de bem-estar, de bem viver, mas que nos escravizam. Das que nós compramos prontas, as quais sequer saberíamos confeccionar, quanto mais nos livrarmos delas. Nesse mundo em que vivemos, o perigo maior é que nós mesmos acabaremos construindo as arapucas em que vamos cair.