ARTICULISTAS

As janelas que nos enquadram

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 17/08/2026 às 18:07
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Eu tinha uma tia que não gostava de sair de casa. A palavra que usávamos era “reclusa”. Ela estava sempre com os braços apoiados no peitoril da janela que dava para a rua. Ficava horas ali, pensativa, silenciosa, absorta em seus pensamentos — ou na ausência deles, sei lá! Não a estou condenando, cada um com a sua vida, suas vontades e necessidades. Ela parecia gostar de contemplar a vida pela janela. Nunca fui capaz de perguntar por que preferia admirar o mundo daquela perspectiva, daquele canto. Procurava alguém? Estava esperando um acontecimento decisivo? Era uma forma de meditação? Minha mãe dizia para não a incomodarmos; então íamos em busca de outros mistérios para desvendar.

Muitos de nós olham para fora e percebem que o olhar está limitado por um quadro, uma moldura. O que vemos é uma paisagem enquadrada. Quem quiser enxergar mais longe ou ver por outros ângulos tem de colocar o rosto para fora. Hoje, as janelas são cada vez menores nos prédios e nas casas. Será proposital? Trata-se de uma estratégia para controlar o que olhamos?

O que fazer para olhar mais longe, com maior amplitude? Olhar para as telas? Da TV, do celular, do computador? Dependendo do que queremos enxergar, as telas podem nos ajudar ou atrapalhar, mas olhar para fora é importante, ou não? Desenvolver nosso próprio olhar, decidir o que queremos ver e como queremos ver é imprescindível, nos dá autonomia e controle sobre nossas vidas.

Janelas não costumam se mexer; abrir e fechar, sim. A janela dos fundos sempre será a mesma, assim como a janela lateral. O que muda é a paisagem e a forma como vemos o mundo. Dependendo da janela, podemos acompanhar o nascer do sol, a chuva, as fases da lua, o movimento das pessoas. É possível saber como está o tempo pela simples observação de como as pessoas estão vestidas, com seus casacos, gorros, guarda-chuvas, se estão apressadas, encolhidas, descontraídas. Olhe bem!

Jovens não têm muita paciência para longas jornadas com os cotovelos apoiados em janelas. Ficam inquietos, agitados. Preferem sair para a rua, participar do movimento, com exceção dos que não largam o celular, um contingente cada vez maior. Se a tela é uma janela, que paisagem conseguem ver? O que querem ver por si mesmos? O que aceitam ver por meio daqueles que direcionam seu olhar? Acho que a resposta é clara, mas como as coisas dependem de como se olha…

Minha tia, enquanto teve saúde para ficar de pé com os braços apoiados na janela, ficou por ali. Depois, adoeceu e eu me lembro dela sentadinha numa poltrona, nunca com um livro nas mãos nem fazendo qualquer atividade, artesanato ou palavras-cruzadas. Suportou seu próprio silêncio a vida inteira. As janelas podem até enquadrar nossa visão, mas é bom sempre olhar mais longe, senão adoecemos. Vamos nessa?

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