ARTICULISTAS

As mentiras que nos contam

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 16/12/2025 às 17:28
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Dizem que, faz tempo, num país distante, viviam pessoas que gostavam de contar mentiras. Eram especialistas; inventavam pequenas, médias e grandes mentiras. Mentiam tanto que chegou uma época em que ninguém mais sabia distinguir uma verdade de uma mentira. As lorotas que contavam foram disseminadas, ensinadas nas escolas, repetidas mil vezes nos programas da televisão, na internet, difundidas nas festas, nos cultos religiosos, nos intervalos do cafezinho nas empresas e nas conversas entre amigos.

Alguns casais mentiam entre si e para os filhos. Nas escolas, foram adotadas mentiras denominadas pedagógicas. Nas lojas, mentiam os vendedores e os fregueses. Nas várias instâncias políticas, cidadãos “de bem” aderiram à mentira e, nos altos e baixos escalões, muitos mentiam, descaradamente.

A mentiraiada era tanta que ninguém mais se importava. Os mentirosos contumazes mentiam por qualquer coisa, mentiam por hábito, mentiam por safadeza, mentiam porque não conheciam a verdade ou porque não sabiam fazer outra coisa. Mentiam falando alto, mentiam por bravata; mentiam baixinho, quase com vergonha; mentiam por convicção e porque não queriam mudar a realidade. Quando alguém se insurgia e reclamava, era taxado de mentiroso: diziam que estava mentindo, que tamanha indignação era falsidade, a mais pura enganação. Era difícil, quase impossível, apurar os fatos, desvendar crimes, evitar engodos e golpes.

Alguns se davam bem, pois aprenderam a mentir sem necessidade de disfarces. Eram muito respeitados. Posavam de honestos, de probos. Todo mundo desconfiava que era mentira, mas se calava. Quanto mais mentiam, mais ganhavam admiração da sociedade. Eram chamados para festas e, cercados por ávida audiência, espalhavam todas as inverdades à disposição, defendiam falcatruas e praticavam todo tipo de safadeza ao longo do ano. O falatório inverídico corria solto.

A enganação se alastrava como ratos nos esgotos, maculando a verdade, os fatos, a moral e os bons costumes. O povo era correto, mas sentia-se confuso. Muitos profissionais cumpriam seu papel. Com raras exceções, alunos não colavam nos exames, produtores rurais não usavam venenos em suas plantações, comerciantes não vendiam produtos vencidos, laboratórios não fabricavam cápsulas de remédio cheias de farinha de trigo. As estatísticas eram confiáveis, a não ser nas mãos dos desonestos, que com elas faziam grotescas manipulações. Ainda assim, às vezes, era difícil saber o que era verdade e o que não era.

A situação piorou muito quando alguns mentirosos iniciaram a revisão da história. Distorceram o passado, disseram que o país fora descoberto, pois se encontrava vazio, à disposição de quem chegasse primeiro. Inventaram que ali nunca existiu escravidão, fome, racismo ou machismo. Afirmaram que a democracia daquele país sempre fora perfeita e que, salvo a opinião contrária de meia dúzia de mentirosos, aquele era o melhor lugar do mundo. Mentiram tanto que eu vou contar uma coisa: fiquei desorientado. Acho que é mentira tudo o que escrevi aqui! Esse lugar nunca existiu. Não existem pessoas mentirosas. Acredita?

 Renato Muniz B. Carvalho

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