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Aurora

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 24/08/2026 às 18:16
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O fim da tarde me pegou sem ter muito o que fazer e fui olhar o pôr do sol. Não foi preguiça nem tive intenção de matar o serviço. São aqueles instantes em que a cabeça se recusa a continuar a labuta e já não pensa segundo a lógica cartesiana. O cansaço mental diz pra gente desligar o computador e ir pra casa tomar um banho, passear com a namorada e ler um livro, não necessariamente nessa ordem.

Escolhi uma praça tranquila, segura, com bancos minimamente sentáveis, e esperei o desenrolar do fenômeno. Foi quando me senti uma pessoa excessivamente calculista, fria, materialista, interesseira. Percebi que, se não tivesse um mínimo de poesia ou sentimento, tanto fazia estar ali ou à mesa do boteco, olhando para a tela do celular. Que tristeza!

O que eu estava fazendo ali? Foi a pergunta que me fiz. Ora, admirando o pôr do sol, como muita gente faz; alguns até batem palmas. Como se o Sol ligasse pra essas manifestações de sentimentalismo rústico. Tá, peço perdão se ofendo os mais sensíveis, os crédulos das lindezas desse mundão sem eira nem beira. Quem nunca se pegou sem palavras diante de tamanha beleza, cores abundantes e riquíssimos desenhos do fim de tarde de inverno? De onde vem tanto deslumbramento? Dos nossos olhos, é claro!

Foi aí que eu me lembrei da Aurora, uma amiga de infância. Não, na verdade, foi de uma marchinha de carnaval, de Mário Lago e Roberto Roberti. Também não, confundi aurora com anoitecer, ocaso, pôr do sol. Que bagunça! Acho que eu estava mais preocupado com uma rima do que com um fenômeno natural. Mas isso é coisa pra poesia.

A aurora vem no começo do dia. O fim da tarde é a boca da noite, quando alguns estão exaustos, embora outros estejam no início da jornada, como os estudantes do período noturno. Eu quero é o nascer do sol, o raiar do dia. Quero levantar da cama bem cedo e correr com o sol, mas tudo isso não passa do movimento de rotação da Terra. O Sol faz de conta que se move em torno do planeta. Se eu continuasse a pensar nessas coisas, não conseguiria aproveitar a beleza do momento.

Por que não batemos palmas para o nascer do sol? Não merece? Alguns compêndios dizem que a palavra aurora está relacionada ao ouro. Será? Lembra o brilho do sol. Talvez seja porque ele não brilha pra todos. É injusto, mas quantos estão dispostos a acordar mais cedo para apoiar o novo dia? Sequer estão dispostos a apoiar um novo mundo, sujeitando-se aos arcaísmos na política, nas artes, nos relacionamentos.

Acho que estamos precisando de uma aurora transformadora, insurgente, insubmissa, que mude nossa maneira de pensar a realidade. Como disse o poeta Nelson Cavaquinho, na linda voz de Clara Nunes: “o sol há de brilhar mais uma vez”.

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