Tive a sorte de conhecer pelo menos dois mundos, o do passado, de antes dos anos 1990, e o atual, também chamado de modernidade, de mundo global ou informatizado, como queiram. Existem controvérsias quanto à nomenclatura, mas vamos deixar isso para outra ocasião. Até hoje, me espantam as diferenças e as semelhanças entre os dois momentos. Às vezes, acho que mudou pouco; às vezes, acho que mudou muito. Pior é quando constato que certas atitudes, hábitos e modos de pensar contemporâneos ainda pertencem à Idade Média europeia. Pobres de nós, ou melhor, desses infelizes que defendem arcaicos comportamentos medievais. Deixa para lá.
Uma das coisas que ainda me confundem é a prática da carona. Muitas pessoas que conheço já deram ou pediram carona. Eu mesmo já dei muita carona na vida, e peguei também, embora menos. Enquanto estudante, nos anos 1970, pegava carona na saída da faculdade onde eu estudava. Quando me formei, nos anos 1980, dava carona todos os dias a um colega e grande amigo, professor como eu, mas que não dirigia. Eu gostava de dar caronas a estudantes, a funcionários das escolas onde lecionava e a outros professores, sempre que me pediam. Eram momentos de troca de informações, conversas sobre eventos culturais, desde a programação de cinema até exposições de arte.
Como eu andava bastante pelo meio rural, nas incontáveis estradinhas de terra que davam acesso a propriedades rurais e a pequenos povoados, também costumava dar carona sempre que me pedissem. Ah, e receber também. Quando adolescente, ia e voltava da fazenda do meu avô de carona no caminhão leiteiro, que passava recolhendo os latões de leite. E ele não carregava só leite, mas encomendas, remédios e notícias. Hoje, não existem mais, foram substituídos por tanques de aço inox, por caminhões modernos nos quais a carona deve ser proibida. A qualidade do leite melhorou, sem dúvida, mas alteraram-se as relações entre os moradores, os encontros e a camaradagem. Carros, camionetes exibidas e motos barulhentas substituíram carroças e caminhões leiteiros. Celulares e mensagens nas redes sociais substituíram as conversas ao pé do fogão a lenha, na carroceria ou nas boleias dos caminhões das caronas aleatórias.
Minha avó tinha receio das caronas. Nos punha medo, dizia que quem pedia carona podia estar mal-intencionado. Pegávamos e dávamos carona assim mesmo, sem muito alarde. Mas era raro pegar carona com desconhecidos, ou oferecer. Conhecíamos os roteiros, os horários e as pessoas. O que não significa que casos de violência e crime fossem inexistentes. Por isso, o medo da minha avó e, talvez, o declínio de uma prática que era uma boa expressão de solidariedade. Hoje, os chamados veículos de aplicativo são um tipo de carona, quem nunca pediu um? As caronas estão ficando para trás. Sobrou a saudade do vento fresco das manhãs batendo em nossos rostos sorridentes segurando solavancos em cima de uma carroceria.
Renato Muniz B. Carvalho